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Bem-me-quer

26 de janeiro de 2011


Eu gosto de você. Calma! Gosto de você só um pouco. Na nossa geração gostar demais é cafona, chato, sem graça. Não gosto muito da nossa geração. Mas gosto de você. Acho que é porque você não me cobra explicações, aparece sem espinhos, some quando sabe que estou prestes a me apaixonar. Você não é tolo para me deixar apaixonada. Estragaria tudo, não é mesmo?

Gosto de você porque existe sempre aquela tensão sexual, aquela promessa velada de noite libertina. Gosto de você porque você gosta do jogo, não faz esforço, não se importa demais, mas está sempre por ali, meio mineirinho, mesmo sem ser da terra de Juscelino.

Eu adoro como você fica com ciúmes dos outros caras quando eles dão em cima de mim. Gosto ainda mais quando você disfarça o desconforto, adoro provocá-lo. Sim, sou um pouco sádica. Mas veja, não temos absolutamente nada, como pode se chatear com isso? Não é você avesso a compromissos? Mas quem precisa de rótulos? É uma escolha nossa. Ironia existir um nós nesse caso, não? Adoro isso. Rio quando meus amigos dizem: “Quem? Aquele cara? Ele é louco por você. Tá na cara.”

Você é louco por mim, eu gosto disso. Adoro o fato de você não querer aceitar isso. Você sempre me faz dar boas risadas. Sabe, acho você engraçado. Gosto de você não conseguir se afastar o suficiente para me esquecer. Eu não quero mesmo que você me esqueça. Eu quero você completamente apaixonado por mim. Sim, sou ambiciosa. Que mulher não quer um homem bonito, solteiro e bem-sucedido aos seus pés? Eu quero. Provoco. Preciso. Gosto. É uma questão de ego, claro. Tenho só uma quedinha (e olhe lá!) por você, já disse.

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Um casal e uma dúvida

8 de novembro de 2010

Quando é que você ia me contar?
Contar o que? E essa cara?

Cara de quem descobriu que você é homossexual.
Oi?

Isso mesmo que você ouviu. Eu me dei conta disso há... Pera aí, que lenço é esse no seu pescoço?
É um que achei no fundo do seu armário, ele é tão bonitinho. Você me dá?

Pode me devolver agora! Isso foi presente do meu ex-namorado.
Hum, mais um namorado seu com bom gosto.

Tira o lencinho do pescoço! Anda!
Ai, você está me machucando! Para! E não sou gay.

Mas é claro que é!
Você não pode sair por aí definindo minha orientação sexual por uma peça de roupa. Olha o Laerte aí que não me deixa mentir.

Não é só uma. Mas não posso? Tudo bem. Posso falar da sua vida íntima. Que tal o argumento de que você adora sexo anal?
Que baixa, ainda faz rima! Sim, gosto de sexo anal com mulheres, o que há de gay nisso?

Ah meu querido! É isso, o lencinho, a paixão por moda, a verbena na banheira...
A verbena? A verbena é um clássico, todo mundo sabe que relaxa, perfuma e ainda é um afrodisíaco natural! Tenha dó! E você adora quando eu preparo seu banho com verbena. Não seja cruel.

Não vou discutir mais nada com você, eu quero que você vá embora. Tá tudo terminado!
Mas isso é um absurdo! Eu amo você!

Absurdo é você namorar uma mulher, no caso eu, quando gosta de homens. Ai, como eu fui burra, eu devia ter desconfiado quando você achou o máximo passar o final de semana inteiro vendo todas as temporadas de Sex and the City.



Sabe, quando pedi a Deus um namorado com todas as suas qualidades, eu me esqueci de pedir: ele precisar ser hétero.
Ora, não seja ridícula, eu fiquei feliz de passar o final de semana com você. Só isso.

Não tente disfarçar agora, eu lembro muito bem de como você gosta da Carrie.
Ah, ela é magrinha, adoro mulheres magras. Mas que ridículo eu ficar me explicando. Tenho o direito de gostar de quem quiser. E você que gosta do Monty Python?



Eu gostei de um filme, “A vida de Brian”, achei engraçado, mas o que isso tem a ver? Ah!!!!!!! E você me lembrou bem! Quantas vezes fomos em restaurantes e você falava: não vai comer o prato todo, né? Isso engorda, querida. Mimimi.
Quer dizer que me preocupar com sua saúde faz de mim um homossexual? Faça-me o favor! Você está louca!

Quer outro argumento? Qual o programa que mais fazemos juntos?
Compras. Não vejo como isso pode ser um argumento.

A-há!! Pois você é o primeiro namorado meu que gosta de fazer compras!
Você deveria me agradecer!Bando de namorado mais ou menos.
Eu agradeço, mas não suporto a ideia de você ser gay.

Eu não sou gay. Deixe de bancar a louca, estou ficando irritado. Você não gosta mais de mim, é isso?
Que raiva de você (suspiro). Olha, eu juro que não vou ficar chateada. Tudo bem, (respira fundo, respira fundo) eu entendo. Mesmo! Mas admita!

Eu não vou mais discutir com você. Se você quer terminar o namoro, não invente desculpas absurdas. Termine e pronto. Estou muito magoado. Aliás, vou embora, chega de tanto chilique. AAHHHHHHHHHHHH!
O que foi?

Uma... uma BARATA!!!!!AHHH!
Onde?

Aí embaixo!
Eu não acredito que você subiu de sapato na minha cama! Sai já daí!

Não antes de você matar essa barata!
Como você é podre, tem ideia de onde você já pisou com esse sapato? Eu durmo nessa cama. Aliás, você também. Troquei a roupa de cama ontem e...

MATA A BARATA!!
Nossa, não precisa gritar!Vamos fazer um trato, você me devolve o lencinho e eu tiro a barata daqui.

Tá bom! Mas mata ela logo!
Primeiro o lencinho!

Toma.Que dia, primeiro sou rotulado, depois essa nojenta aí achando que o chão é dela.

Muito bem, agora vou pegar a nojenta.
O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO???

Ué, to pegando a barata, não vou matar a coitada.
Você está pegando com o lencinho. Aliás, você está pegando uma barata com a mão. Que mulher faz isso? Ui...

Ah, sim! Eu uso esse lencinho para pegar baratas. Odeio meu ex-namorado. Falei para você tirar o lenço. Tentei avisar, mas você só queria se defender do indefensável.
Sua cretina! Esse lenço é de um estilista! Uma peça de luxo.

É meu, faço com ele o que quiser. Pronto. Já joguei a barata pela janela. Quer o lenço de volta? Hehehe! Toma!
Sua sádica! Um lenço lindo e pensar que botei isso aí no meu pescoço. Olha, você tem razão. Não dá mais. Nosso relacionamento acabou.

Ora, por favor, esse relacionamento nunca existiu. Mas você ainda vai fazer compras comigo, né?

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Meu namorado é michê!

15 de setembro de 2010

— Foi isso que descobri. Estou arrasada. Michê mesmo. Não estou falando de ator pornô ou stripper. Estou em choque, estado total de não saber o que fazer.
Meu desespero maior foi que descobri tudo quando fui numa casa de suingue. Não sei o que fazer. Não posso virar e dizer: Eu vi você naquela suruba. Quando é que você ia me contar que seu ganha-pão é vender o corpitcho?

Corpo, aliás, que ô lá em casa! Cary Grant teria inveja daquele homem. Aquilo não é um cara, é uma manifestação divina. Divindade do mal. É bonito demais, carinhoso demais, animado ao extremo. Criatividade sexual deveria ser seu sobrenome. Ai que burra que eu sou!

Cary Grant


Por que eu não desconfiei? Quero dizer, aquele papo de trabalhar na balada, ai que burra. Ele disse que trabalhava na vida noturna, mas eu jurava que era como gerente de um agito qualquer. Promoter, ele disse uma vez. Fazia mistério o filho da puta. Sei bem o que ele está promovendo...

Olha, vou contar tudo. Sabe como eu o conheci? No supermercado. Costumo ser muito desligada, não reparo em ninguém, mas não é exagero, acho que o Alain Delon passava batido e até o Montgomery Clift perderia a graça.

Montgomery Clift


Fui pegar meus morangos orgânicos. Ele também. Fulminante. Eu mencionei o fato dele ser lindo? Fiquei como uma idiota com morangos na mão e sorriso de paspalha na cara. E ele sorriu de volta. Com um sorriso mais imbecil que o meu.

Não sou nenhuma CharlizeTheron. Nunca fui comparada a Monica Bellucci. Então o que uma mera mortal faz quando está frente a frente com a prova de que Hegel não sabia nada sobre o belo natural? Ou aquele era David reeencarnado?

Ele perguntou se eu queria a última caixa de morango. Eu balancei a cabeça positivamente. Ele sorriu, puxou papo. Achei que ele era modelo. Quando ele falou de Molière pensei, ah! É ator! Deve ser gay. Mas porque um deus grego homossexual ficaria conversando comigo numa gôndola (nada veneziana) sobre "O vermelho e o negro"?



Claro que depois disso ele me chamou para sair. Eu fui. Não perderia a chance de sair com a reencarnação brasileira de Apolo. E aí pronto, I was walking on sunshine, ô ô! Há cinco meses. Eu e meu mundo cor-de-rosa estávamos mais para pink Barbie e o universo maravilhoso do Ken.

E eis que sou chamada por uma amiga (da onça) para ir numa casa de suingue. Pudor e curiosidade não combinam. Resolvi ir e pensei: é só eu não fazer nada, vou sem par, é só para conhecer.

Eu? Casa de suingue? O que minha avó ia pensar? O que meu pai diria? Quem sou eu? Mas lá estava eu, no coração do Itaim Bibi, em um dos lugares mais deprimentes da minha vida.

Olha, arrependimento mata. Morri quando vi meu Paul Newman praticamente fazendo yoga avançada com uma mulher muito mais feia que eu. Eu achava que ele me amava. Fui à gerência do lugar, conversei com um ridículo homem gordo vestido de roupão bege, o dono do lugar. Ele queria transar comigo. Falei que queria saber sobre aquele cara da casa. Depois faria tudo que ele quisesse.

Paul Newman

Ele soltou uma gargalhada. Disse que o bonitão todo mundo queria (o meu bonitão?), ele era contratado. Garoto de programa. Se eu quisesse ele fazia um desconto.

Por mais ridículo que pareça fiquei aliviada. Ele não estava me traindo. Mas é claro que um segundo depois e aquela mão do gordão na minha cintura fez minha ficha cair.

Saí correndo. Acho que nunca corri tanto. Fui pra casa. Chamei o chaveiro 24 horas e troquei o segredo da fechadura. Chorei. Joguei meu chip do celular fora. Tive nojo de mim. Quis queimar o lençol. Ódio. Rancor. Mágoa. Passou tanta coisa pela minha cabeça.

Agora estou aqui, olhando para você. Ele não me viu, mas eu não sei o que fazer. Saí muito cedo de casa, ele não pode mais entrar, não pode se comunicar comigo e, ao mesmo tempo, nunca amei um homem assim. Por que ele não me disse que era profissional do sexo? Por que ele é tão bonito? Por que você não fala nada para me ajudar? Eu estou desesperada. Pensei em acabar com minha vida.

Por que eu fui naquele pardieiro?

A psicóloga não respondeu nada. Achou que a moça só poderia ter inventado uma história tão absurda como aquela.

Só pensou: mais bonito que o Alain Delon? Ai, ai! Duvido!

Alain Delon

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Apologia ao ego

27 de abril de 2010


Paulistano adora autopropraganda. Aliás, São Paulo é um marketing por si só. Esse blog mesmo, não passa de um merchandising do tipo: ”Compre São Paulo para você também”.

Aqui o mercado vai bem além do óbvio. Hoje ouvi duas mulheres conversando: “Sabe a Marisa? Ela vem mandar em mim, dá uma raiva. E o pior, as pessoas gostam dela. No fim das contas quem faz tudo sou eu. Porque as pessoas gostam dela? Não entendo!”

E a resposta foi: “É que a Marisa faz marketing pessoal!”

An? A Marisa tem marketing pessoal? Agora safadeza mudou de nome?

Eu tenho a sensação que qualquer hora vão criar uma lei estadual para a pessoa virar empresa. Não vai mais existir pessoa física. Ser humano é tão século XX, démodé demais!

Já reparou como aumenta o número de pessoas que trabalha como PJ? No trabalho e nos círculos sociais temos o tempo todo de manter bons relacionamentos interpessoais (que o diga a Marisa), além de fazer marketing profissional para a galera do Corinthians e ter extenso network. Estamos nos vendendo o tempo todo. Cadê o CONAR para ajudar?

Outro dia li em um site: “saiba como explorar mais seu capital erótico”. Para ter capital erótico a receita de bolo é bem simples: seja belo, atraente, sociável, bem apresentado, antenado e fértil. Pronto, facílimo!

Pense que se você for feio, pode chamar o Ivo Pitanguy. Se não tiver sex appeal, é só fazer um curso de massagem tântrica. Caso tenha timidez, faça teatro. Cafona? Shopping with one personal stylist! Para quem não está conectado com as tendências, iPad you, já! E se você não é fértil, tá moleza, in vitro serve pra isso.

Mas nada disso adianta se você não tem borogodó! Também conhecido por le joie de vivre. Ahh, você não nasceu a Carla Bruni? Então desolé!

Em São Paulo esse egomarketing pauta a vida das pessoas. Cansei de ouvi que fulano tem um coach, beltrano tem um livro de auto-ajuda que ensina como trabalhar seus medos que nem você sabia que existia e Ciclano vai dar uma palestra sobre o segredo de um casal bem sucedido, rico e que vive 258 anos juntos.

Ah sim, claro! To acreditando nisso tudo. Mas e daí? Se você não quiser ser o mestre kama sutra do capital erótico? Qual é o problema? Se seu marketing pessoal não está crescendo nas pesquisas do twitter, o que eu tenho com isso? Como diz uma mulher sábia: “No final é tudo terra na cara!”

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