Receita de amor perdido

17 de dezembro de 2010

Quando o amor acabar, saia por aí e tome todas. Telefone para os amigos, fale que está desesperado, que não sabe o que fazer. Chame os solteiros que deixou de lado por causa daquele amor idiota. Peça desculpa a eles. Chore todas as mágoas, durma abraçada com uma amiga que insiste em consolá-la dizendo que o amor não acabou. Passe noites em claro.

Fale para o mundo que está bem, que o amor acabou, mas você ainda está vivo. Perca a fome ou a forma. Sinta o vazio na barriga e finja que é dor de estômago. Sabemos você e eu que a dor é outra e que era preferível um milhão de vezes que fosse gastrite.

Beije outros, outras, ria, divirta-se. Ok! Chore mais se for preciso. Pense nos planos que fizeram juntos, nesse momento talvez o mundo se despedace aos seus pés. Sinta-se idiota por planejar um futuro com aquela pessoa. Saiba-se idiota. Você é idiota. Como foi capaz de deixar um amor acabar? Só um imbecil faz isso.



Calma! Depois disso tudo, reaprenda a se respeitar. Não é só culpa sua, oras! Tem o outro. Aquele cretino. Tenha raiva dele. Internamente envergonhe-se de ter raiva dela. Tudo bem, o que importa? Os sentimentos estão mesmo confusos. Diga para si mesmo o quanto você é maravilhoso e o quanto seu amor é burro. Reconheça-se. Lembre-se de como você adorava bala de canela e não podia comer só porque aquele chato não gostava. Ria de você e dele. Vingue-se! Compre uma caixa de balas, empanturre-se delas.

Aí perceba que nem gostava tanto assim de bala de canela quanto gostava dele. Tenha frio na barriga toda vez que for àquele bar que iam juntos na Vila Madalena. Ah! Fuja correndo do Belas Artes ao vê-lo na fila da bilheteria justo no dia que seu cabelo resolveu não colaborar. Não tem problema. O amor tem um quê de ridículo.



Você ainda vai ter vontade de ligar para ela depois de um dia difícil. Vai se sentir sozinho no domingo. Vai sofrer um pouquinho naquele dia especial. Lembrará-se dela quando vir a Audrey Hepburn na TV a cabo. Mandará uma mensagem de amor perdida ao ouvir “Something” do George Harrison. Mas o tempo vai passar.



Uma hora vai chegar à improvável conclusão de que o amor acabou mesmo. Sua vida continuará. As lembranças doerão menos. O relógio, meu caro, faz a mágoa, a raiva, o tédio, o vazio, tudo passar.

Descanse dos sentimentos tristes. Insisto, veja os amigos novos e os antigos. Amigos são amores bem resolvidos. Não precisam de sexo e quase nunca sentem ciúmes. Recomendo também que fale com sua família. É impressionante quão bem aquelas pessoas o conhecem e o amam.

Respire fundo. Sinta-se leve como há muito tempo não sentia. Apaixone-se brevemente no metrô. Volte a flertar. Anime-se quando aquela nova deusa aceitar sair com você!

De repente entenderá que o amor não acaba, afinal isso é impossível. Ele transforma-se. A transformação permite você seguir em frente. No fundo você sempre soube que aquele era um amor para prepará-lo ao próximo. O próximo sempre chega.

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Vício moderno

9 de novembro de 2010

Essa vida na cidade grande estressa. Todos os dias preciso falar coisas interessantes no twitter, responder atualizações do facebook e trocar a foto do msn que insiste em voltar para a da semana passada. Orkut? Coisa do início do século, por favor.

Depois checo meus e-mails profissionais, pessoais, empresariais. Dou uma olhada no site de notícias para saber o que acontece no mundo além da minha bolha. Leio uma reportagem bizarra sobre um milionário que desistiu de ser mulher cinco anos depois da operação para mudança de sexo. Imagino a minha avó dizendo: “este mundo está perdido”.

Demandas e mais demandas. Dou mais uma olhadinha no site de notícias. Nossa! Comento com os colegas que teve um terremoto lá em Pasárgada. Imediatamente entro no facebook e pergunto aos meus amigos pasargadenses (que conheci num intercâmbio da faculdade) se eles estão todos bem.

Em minutos respondem que sim, o terremoto aconteceu ao sul de Pasárgada e eles moram ao norte, assim como o rei. Respiro aliviada.

Chega uma corrente na minha caixa de entrada falando que é meu dia de sorte, só preciso fazer um pedido e mandar aquele e-mail para 250 pessoas. Como num passe de mágica meu pedido será atendido. Quando vou deletar, leio: Deus está a espreitar tudo o que você faz. Vai renegá-lo se não passar essa mensagem para 320 amigos.

Fico desesperada. Acho uma sacanagem colocar o nome de Deus nisso. Mas passo a corrente adiante pedindo pelos pasargadenses do sul. Em um texto curto peço desculpa aos amigos e explico que só mando aquela corrente porque sou muito supersticiosa.

Mais umas duzentas mil demandas do trabalho por e-mail e telefone. Chega a hora do almoço. Entro no twitter. O mundo não para. Lá nos trending topics , meninas declaram seu amor na rede mundial de computadores: #retardS2

Gente, o que é retardS2? Estou desatualizada. Percebo que S2 é coração (coitada dessa geração). Retard é a mais nova banda de meninos que se travestem de Teletubbies e fazem o maior sucesso com suas canções do século XXI. Faço uma busca cibernética para descobrir o que eles tocam. Não aguento nem duas notas. Tenho a nítida sensação de que estou velha.



Aliás, a geração Pokémon está velha, eu já sou uma dinossaura. Fico chateada ao constatar. Só me resta criticar. Coloco no meu blog um texto chamando o que eu não conheço de retardado. Puro preconceito.

Mais trabalho. Reunião às 16h. Levo meu smartphone, claro. É preciso estar conectada.

O tempo passa e eu blipo enquanto respondo mais umas 440 demandas internas. Quando vejo, o sol se pôs. Os últimos da sala perguntam se eu quero ganhar o chapéu de funcionária do mês. Em pouco tempo estou sozinha. Viciada no computador. Quando tiver filhos vou ver um dia na internet: O Ministério da Saúde adverte: computador é do mal, vicia e impede a inclusão social.

Penso no tempo que estou perdendo nesse vício. Desligo a torre. Só de pensar no trânsito fora do escritório, entro em parafuso. Do meu celular, aviso aos meus parcos seguidores do twitter: Não peguem o ônibus para a Faria Lima, estou parada há uma hora na Rebouças. #failme

Ufa! A única coisa que quero depois de um dia tão cheio é chegar em casa, entrar no Skype e falar com minha família.

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Um certo capitão Rodrigo

Aperte o play!



Contagem regressiva: 5,4,3,2,1...

Uma nave espacial. Capitão Rodrigo dava as coordenadas. A co-pilota era ninguém menos que Tenente Mariana. Por vezes, eles nos avisavam que fariam uma curva perigosa para desviar de um meteoro.

Eu era a aeromoça. Servia biscoitos de chocolate recheado para o tripulante Pablo. Gabriela lia gibi da turma da Mônica durante a viagem interplanetária. Era normal sacudirmos o foguete, ou melhor, o beliche, para mostrar que a tempestade de asteróides não estava para brincadeira.

Aí chegava a Juliana: “Mariana, sua mãe está chamando. Pablo, sua mãe pediu para ver se estava tudo bem com você.”

Mariana explicava: “Shiiiii! Você não pode falar com a gente, não vê que estamos no espaço?”

Rodrigo dava um jeito. “Ah, já sei! Você pode conversar pelo transmissor. Vou começar. Alô, Juju! Capitão Rodrigo falando.”

Juliana logo respondia: “Ai, tá bom! Capitão Rodrigo, onde vocês estão agora?”

“Estamos perto da Lua. É incrível!”

“Pois voltem já para a Terra porque o jantar está na mesa”

Era uma decepção geral. Bié chamava logo a irmã de chata. Pablinho e eu soltávamos vaias. Nosso porta-voz explicava: “Não queremos. Estamos bem alimentados. Temos cápsulas mágicas e Tostines, obrigado. Câmbio, desligo.”



Juju saia aborrecida: “MÃE! Eles não querem parar a brincadeira idiota.”

Todo mundo dava uma grande gargalhada. A tripulação perdia a concentração. A fantasia de criança estava desfeita. Mas e daí? O cheiro de lasanha caseira adentrava a estratosfera e ninguém queria se atrasar ou o Bernardo e a Fernandinha comeriam tudo.

Nada como ter primos.

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Um casal e uma dúvida

8 de novembro de 2010

Quando é que você ia me contar?
Contar o que? E essa cara?

Cara de quem descobriu que você é homossexual.
Oi?

Isso mesmo que você ouviu. Eu me dei conta disso há... Pera aí, que lenço é esse no seu pescoço?
É um que achei no fundo do seu armário, ele é tão bonitinho. Você me dá?

Pode me devolver agora! Isso foi presente do meu ex-namorado.
Hum, mais um namorado seu com bom gosto.

Tira o lencinho do pescoço! Anda!
Ai, você está me machucando! Para! E não sou gay.

Mas é claro que é!
Você não pode sair por aí definindo minha orientação sexual por uma peça de roupa. Olha o Laerte aí que não me deixa mentir.

Não é só uma. Mas não posso? Tudo bem. Posso falar da sua vida íntima. Que tal o argumento de que você adora sexo anal?
Que baixa, ainda faz rima! Sim, gosto de sexo anal com mulheres, o que há de gay nisso?

Ah meu querido! É isso, o lencinho, a paixão por moda, a verbena na banheira...
A verbena? A verbena é um clássico, todo mundo sabe que relaxa, perfuma e ainda é um afrodisíaco natural! Tenha dó! E você adora quando eu preparo seu banho com verbena. Não seja cruel.

Não vou discutir mais nada com você, eu quero que você vá embora. Tá tudo terminado!
Mas isso é um absurdo! Eu amo você!

Absurdo é você namorar uma mulher, no caso eu, quando gosta de homens. Ai, como eu fui burra, eu devia ter desconfiado quando você achou o máximo passar o final de semana inteiro vendo todas as temporadas de Sex and the City.



Sabe, quando pedi a Deus um namorado com todas as suas qualidades, eu me esqueci de pedir: ele precisar ser hétero.
Ora, não seja ridícula, eu fiquei feliz de passar o final de semana com você. Só isso.

Não tente disfarçar agora, eu lembro muito bem de como você gosta da Carrie.
Ah, ela é magrinha, adoro mulheres magras. Mas que ridículo eu ficar me explicando. Tenho o direito de gostar de quem quiser. E você que gosta do Monty Python?



Eu gostei de um filme, “A vida de Brian”, achei engraçado, mas o que isso tem a ver? Ah!!!!!!! E você me lembrou bem! Quantas vezes fomos em restaurantes e você falava: não vai comer o prato todo, né? Isso engorda, querida. Mimimi.
Quer dizer que me preocupar com sua saúde faz de mim um homossexual? Faça-me o favor! Você está louca!

Quer outro argumento? Qual o programa que mais fazemos juntos?
Compras. Não vejo como isso pode ser um argumento.

A-há!! Pois você é o primeiro namorado meu que gosta de fazer compras!
Você deveria me agradecer!Bando de namorado mais ou menos.
Eu agradeço, mas não suporto a ideia de você ser gay.

Eu não sou gay. Deixe de bancar a louca, estou ficando irritado. Você não gosta mais de mim, é isso?
Que raiva de você (suspiro). Olha, eu juro que não vou ficar chateada. Tudo bem, (respira fundo, respira fundo) eu entendo. Mesmo! Mas admita!

Eu não vou mais discutir com você. Se você quer terminar o namoro, não invente desculpas absurdas. Termine e pronto. Estou muito magoado. Aliás, vou embora, chega de tanto chilique. AAHHHHHHHHHHHH!
O que foi?

Uma... uma BARATA!!!!!AHHH!
Onde?

Aí embaixo!
Eu não acredito que você subiu de sapato na minha cama! Sai já daí!

Não antes de você matar essa barata!
Como você é podre, tem ideia de onde você já pisou com esse sapato? Eu durmo nessa cama. Aliás, você também. Troquei a roupa de cama ontem e...

MATA A BARATA!!
Nossa, não precisa gritar!Vamos fazer um trato, você me devolve o lencinho e eu tiro a barata daqui.

Tá bom! Mas mata ela logo!
Primeiro o lencinho!

Toma.Que dia, primeiro sou rotulado, depois essa nojenta aí achando que o chão é dela.

Muito bem, agora vou pegar a nojenta.
O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO???

Ué, to pegando a barata, não vou matar a coitada.
Você está pegando com o lencinho. Aliás, você está pegando uma barata com a mão. Que mulher faz isso? Ui...

Ah, sim! Eu uso esse lencinho para pegar baratas. Odeio meu ex-namorado. Falei para você tirar o lenço. Tentei avisar, mas você só queria se defender do indefensável.
Sua cretina! Esse lenço é de um estilista! Uma peça de luxo.

É meu, faço com ele o que quiser. Pronto. Já joguei a barata pela janela. Quer o lenço de volta? Hehehe! Toma!
Sua sádica! Um lenço lindo e pensar que botei isso aí no meu pescoço. Olha, você tem razão. Não dá mais. Nosso relacionamento acabou.

Ora, por favor, esse relacionamento nunca existiu. Mas você ainda vai fazer compras comigo, né?

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34ª Mostra de Cinema Internacional - 26/10/2010

27 de outubro de 2010

Ontem de noite na 34ª Mostra de Cinema Internacional assisti a dois filmes que falam sobre transtornos mentais. Abel (México 2010) e Mamma Gógó (Islândia 2010). Com temáticas parecidas, os filmes tratam de dramas familiares e os dois diretores têm relação pessoal com as histórias. A ironia de ver um após o outro é que o longa mexicano é bem menos “dramalhão” que o islandês. Abaixo a resenha de cada um.

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Los bigotes de un niño



Abel (2010) é o primeiro filme do ator mexicano Diego Luna. A relação entre mãe e filho da história é explorada pelo diretor que perdeu a mãe quando ainda era criança. Para refrescar sua memória Luna atuou em “Milk, a voz da liberdade” – 2008 e, ao lado de Gael García Bernal, em “E sua mãe também” – 2001. No atual Bernal também participa, dessa vez é produtor executivo com ninguém menos que John Malkovich.

A história contada é a do pequeno Abelardo (Christopher Ruíz-Esparza), garoto de 10anos que tem autismo. Depois de passar um bom tempo em um hospital psiquiátrico, ele volta para casa. Sua mãe Cecília (Karina Gidi) vive a difícil tarefa de cuidar da adolescente Selene e do pequeno Paul sozinha, já que o pai das crianças sumiu há dois anos. Nessa atmosfera pouco favorável, o menino vê para si um papel mais adequado que a de “filho problema”, ele passa a ser o homem da casa, dando ordens nos irmãos e dormindo na cama da mãe. Isso até o pai deles reaparecer, abalando a frágil estrutura familiar inventada por Abel.

Com cenas cômicas e a atuação excepcional de Karina Gidi, o enredo trata de um tema conhecido desde o clássico Ray Man (1988) de forma bem singular. O longa se passa em uma comunidade simples, mas nem por isso precisa apelar para a pobreza, ali, a aflição da mãe em cuidar do filho e o complexo de Édipo vivido pelo menino é que são os pontos fortes do filme. O ator mirim Christopher Ruíz-Esparza rouba a cena em muitos momentos como quando desenha “los bigotes” que faltam ao gato feito para a escola pelo irmãozinho Paul.

A fotografia do longa-metragem não chama muito a atenção, salvo uma ou outra cena como a da piscina. Os poucos silêncios da história são bem aproveitados e a trilha sonora é usada como pano de fundo, costurando todo o filme. Para quem tem interesse pelo tema e não pôde assistir durante a Mostra, espere sair no circuito alternativo, Abel tem forte traço psicológico, vale seu tempo e sua pipoca.

Trailer em espanhol (sem legendas)

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Um dramalhão islandês

Esperava mais de Mamma Gógó (2010), filme islandês autobiográfico de Fridrik Thor Fridriksson. O transtorno mental abordado no enredo é o mal de Alzheimer vivido por Gógó, mãe de duas mulheres e um diretor cinematográfico falido. Muito boa a atuação de Kristbjörg Kjeld na pele da personagem que apronta poucas e boas com seu filho cineasta. Mamma inunda a casa, embebeda o neto e conversa com o marido morto. Tudo graças à doença que carrega.

Apesar de ser sensível, em algum momento a história se perde e tende ao clichê. Fridriksson acerta no uso metalinguagem e mostra a doença com uma certa dose de humor e esperança. Mas exagera na menção ao seu outro longa-metragem “Filhos da Natureza”, é quase uma propaganda. O drama familiar não toca como deveria. Não há aprofundamento do sentimento da mãe ou do filho, fica meio solto. Ainda assim, é um filme islandês, raro nesse lado dos trópicos, só isso já é motivo para assistir na Mostra. Mas ele também já saiu de cartaz. Quem sabe na repescagem da Mostra?

Saí da sala de projeção lembrando do argentino com a mesma temática “O Filho da Noiva” (2001). Os dois longas falam do mesmo assunto e têm cenas cômicas, mas o portenho sensibiliza muito mais. Será que a cultura da Islândia é tão diferente que influencia na forma de fazer cinema? De qualquer maneira, é unanimidade neste universo que para fazer boas produções é preciso contar uma boa história. A de Fridriksson é razoável e a de Campanella, já se conhece, é emocionante.

Abaixo o trailer de Mamma Gógó com legenda em inglês

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Rapunzel costarriquenha

26 de outubro de 2010

Série de críticas de filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema



Do amor e outros demônios (Del amor y otros demonios - 2009) é a história de uma menina de 13 anos com longos cabelos vermelhos chamada Servia Maria que vê seu mundo letárgico mudar após a mordida de um cão raivoso. Passada na época da inquisição, a história é inspirada no romance homônimo do Nobel Gabriel Garcia Marquez. Entendendo que a raiva era uma doença da alma, o bispo de Cartagena obriga o marquês de Casalduero a tirar sua filha ruiva do convívio social para uma suposta cura espiritual sob a supervisão do jovem padre Cayetano Delaura (Pablo Derqui) em um convento de freiras. O amor entre o padre e a ruiva floresce das sessões de exorcismo.

O impacto inicial do filme é delicioso. A primeira cena traz Sérvia Maria, interpretada por Eliza Triana, de pele alvíssima com lindas tranças vermelhas se despedindo em um barco de sua escrava africana de cabelos grisalhos em um turbante também vermelho contrastando com o cenário do fundo todo em tons de verde. É uma cena bela, mas o filme, apesar de bonito, não surpreende.

Falta à estréia da cineasta Hilda Hidago, aquele tempero do realismo fantástico de Garcia Marquez. Muitas cenas carecem de diálogo e a história de amor fica em segundo plano. Para falar a verdade, quase se esquece o nome do longa, ele poderia se chamar Da madorna, demônios e um pouquinho de amor.

Mas afinal, já se sabe que um filme dificilmente alcança a maestria do livro inspirador. Um exemplo bem recente e comercial é “Comer, rezar, amar” com a rasa atuação de Julia Roberts, bela fotografia e péssima adaptação do livro com o mesmo nome. Se essa obra foi difícil de trazer às telas, o que falar de quem tem a ousadia de levar ao cinema toda a genialidade de Garcia Marquez? Não é tarefa fácil. Exemplo disso é a frustrante adaptação de “O amor nos tempos do Cólera” de Mike Newel (2007). Se o longa de Hilda não empolga como um Nobel merece, pelo menos não chega a incomodar quem o vê, isso já é um mérito.

É interessante ressaltar que o filme mantém as inferências fantásticas do livro como em Rapunzel. Ou seja, é apropriado associar o filme ao conto da princesa presa na torre que espera seu príncipe salvador, nisso Hidalgo acertou. Mas o romance proibido de Cayetano e Servia do longa é quase uma história da Carochinha, falta a angústia do sentimento impossível, ou em bom português, falta tesão.

A direção de arte fez um ótimo trabalho e a trilha sonora de Nério Barberis (que não por acaso também esteve à frente do som de “O crime do Padre Amaro” em 2002) combina com a história de um filme que louva o amor.

Mesmo assim vale a pena conferir este filme (co-produção da Costa Rica com a Colômbia) que, assim como outros dez latino-americanos, concorre aos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. E ainda que o Brasil esteja entre estes concorrentes, parece fora do esquadro. Resta saber quando o cinema brasileiro vai seguir essa boa onda latina.

Do amor e outros demônios - trailer


Quer assistir na Mostra? Ainda dá tempo:

Cinemateca - Sala BNDES
Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino
Terça-feira 26 de outubro, 16:30

Belas Artes - Sala 2
Rua da Consolação, 2423, Consolação
Sábado 30 de outubro, 20:10

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Meu namorado é michê!

15 de setembro de 2010

— Foi isso que descobri. Estou arrasada. Michê mesmo. Não estou falando de ator pornô ou stripper. Estou em choque, estado total de não saber o que fazer.
Meu desespero maior foi que descobri tudo quando fui numa casa de suingue. Não sei o que fazer. Não posso virar e dizer: Eu vi você naquela suruba. Quando é que você ia me contar que seu ganha-pão é vender o corpitcho?

Corpo, aliás, que ô lá em casa! Cary Grant teria inveja daquele homem. Aquilo não é um cara, é uma manifestação divina. Divindade do mal. É bonito demais, carinhoso demais, animado ao extremo. Criatividade sexual deveria ser seu sobrenome. Ai que burra que eu sou!

Cary Grant


Por que eu não desconfiei? Quero dizer, aquele papo de trabalhar na balada, ai que burra. Ele disse que trabalhava na vida noturna, mas eu jurava que era como gerente de um agito qualquer. Promoter, ele disse uma vez. Fazia mistério o filho da puta. Sei bem o que ele está promovendo...

Olha, vou contar tudo. Sabe como eu o conheci? No supermercado. Costumo ser muito desligada, não reparo em ninguém, mas não é exagero, acho que o Alain Delon passava batido e até o Montgomery Clift perderia a graça.

Montgomery Clift


Fui pegar meus morangos orgânicos. Ele também. Fulminante. Eu mencionei o fato dele ser lindo? Fiquei como uma idiota com morangos na mão e sorriso de paspalha na cara. E ele sorriu de volta. Com um sorriso mais imbecil que o meu.

Não sou nenhuma CharlizeTheron. Nunca fui comparada a Monica Bellucci. Então o que uma mera mortal faz quando está frente a frente com a prova de que Hegel não sabia nada sobre o belo natural? Ou aquele era David reeencarnado?

Ele perguntou se eu queria a última caixa de morango. Eu balancei a cabeça positivamente. Ele sorriu, puxou papo. Achei que ele era modelo. Quando ele falou de Molière pensei, ah! É ator! Deve ser gay. Mas porque um deus grego homossexual ficaria conversando comigo numa gôndola (nada veneziana) sobre "O vermelho e o negro"?



Claro que depois disso ele me chamou para sair. Eu fui. Não perderia a chance de sair com a reencarnação brasileira de Apolo. E aí pronto, I was walking on sunshine, ô ô! Há cinco meses. Eu e meu mundo cor-de-rosa estávamos mais para pink Barbie e o universo maravilhoso do Ken.

E eis que sou chamada por uma amiga (da onça) para ir numa casa de suingue. Pudor e curiosidade não combinam. Resolvi ir e pensei: é só eu não fazer nada, vou sem par, é só para conhecer.

Eu? Casa de suingue? O que minha avó ia pensar? O que meu pai diria? Quem sou eu? Mas lá estava eu, no coração do Itaim Bibi, em um dos lugares mais deprimentes da minha vida.

Olha, arrependimento mata. Morri quando vi meu Paul Newman praticamente fazendo yoga avançada com uma mulher muito mais feia que eu. Eu achava que ele me amava. Fui à gerência do lugar, conversei com um ridículo homem gordo vestido de roupão bege, o dono do lugar. Ele queria transar comigo. Falei que queria saber sobre aquele cara da casa. Depois faria tudo que ele quisesse.

Paul Newman

Ele soltou uma gargalhada. Disse que o bonitão todo mundo queria (o meu bonitão?), ele era contratado. Garoto de programa. Se eu quisesse ele fazia um desconto.

Por mais ridículo que pareça fiquei aliviada. Ele não estava me traindo. Mas é claro que um segundo depois e aquela mão do gordão na minha cintura fez minha ficha cair.

Saí correndo. Acho que nunca corri tanto. Fui pra casa. Chamei o chaveiro 24 horas e troquei o segredo da fechadura. Chorei. Joguei meu chip do celular fora. Tive nojo de mim. Quis queimar o lençol. Ódio. Rancor. Mágoa. Passou tanta coisa pela minha cabeça.

Agora estou aqui, olhando para você. Ele não me viu, mas eu não sei o que fazer. Saí muito cedo de casa, ele não pode mais entrar, não pode se comunicar comigo e, ao mesmo tempo, nunca amei um homem assim. Por que ele não me disse que era profissional do sexo? Por que ele é tão bonito? Por que você não fala nada para me ajudar? Eu estou desesperada. Pensei em acabar com minha vida.

Por que eu fui naquele pardieiro?

A psicóloga não respondeu nada. Achou que a moça só poderia ter inventado uma história tão absurda como aquela.

Só pensou: mais bonito que o Alain Delon? Ai, ai! Duvido!

Alain Delon

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A vida tem trilha sonora

14 de setembro de 2010

Passei este fim de semana com uma melodia na cabeça, sem lembrar da letra, martelando o som lá dentro de forma capenga. Até que um anjo resolveu me ajudar e fez uma pessoa simplesmente tuitar a música hoje. Que alívio!

Killing me softly/Lauryn Hill & Wyclef


Uma ironia o título ser justamente killing me softly (matando-me suavemente), afinal essa música estava me consumindo. A letra fala da relação músico/ouvinte. Quem nunca ouviu uma música e pensou que ela servia como uma mão na luva para determinado sentimento?

Quer um exemplo? A Marisa Monte é uma ótima referência em temas de relacionamento(inclusive os meus).

Na música "A sua", o amor ultrapassa os limites do viver junto. O mais importante é que a pessoa esteja bem, ou seja, é um amor pouco egoísta. Embora a letra tenha um tom bem fraternal, sempre me lembra um relacionamento intenso e saudável que tive.

Amor à distância

A sua/ Marisa Monte



A próxima música fala de um amor mal resolvido. Tem tudo a ver com uma paixão paulistana em que fui protagonista (risos). Eu me sentia assim mesmo, mais uma na multidão, perdida nesta cidade enorme. O medo, na música, é bilateral. Igual à história de amor de muita gente, né? Cego, só enxerga o outro, mas com o mistério que o parceiro entrega em retorno, o medo é que predomina.

Medo de amar

Mais um na Multidão/ Marisa Monte e Erasmo Carlos



Pensando nisso, uma amiga minha costuma dizer que as músicas nos inspiram o tempo todo. É como se nossa vida tivesse trilha sonora. Eu concordo. Lembro que essa mesma amiga em uma época combatia "piratas" diariamente no trabalho e (não) por coincidência este era o toque de celular comercial dela.

Chasing pirates/ Norah Jones



Aliás, não sei se já comentei, mas foi uma música que inspirou este blog, ele surgiu justamente porque não dá para ficar indiferente debaixo deste céu.

Lá vou eu/ Zélia Duncan



Atualmente estou sem musica tema na minha trilha sonora, estou no que chamo de entressafra. Isso é raro na minha vida. E você? Que música é a sua cara?

Este post foi inspirado no blog da minha talentosa amiga Adriana Caitano que fala sobre música popular brasileira.

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Papo calcinha

13 de setembro de 2010



Aviso aos desavisados! Futebol também é coisa de mulher. Os mais de 1.600.000 resultados sobre o tema no google confirmam isso. Sei que não sou a primeira e nem serei a última a defender a causa. E também sei que isso não é valido para todas as meninas. Mas vou dar meu pitaco no assunto pelo simples motivo de achar que vale a pena (ou o teclado, no caso).

Sabemos que nós meninas não somos, necessariamente, conhecedoras do time todo na ponta da língua e que nem sempre somos ases em técnicas futebolísticas. Só que muitas de nós sabe sim o que é impedimento, acompanha as rodadas do Brasileirão e conhece o técnico da maioria dos times. A gente vibra, grita, contagia qualquer um! Ora, só porque não sentimos necessidade de saber se lá em mil novecentos e lá vai bolinha o Arapiraca foi campeão de botão, isso não nos faz menos torcedoras que vocês.

Também torcemos com paixão, vestimos a camisa e muitas choram quando o time perde da mesma maneira que os marmanjos choram com final de novela. E deixo claro que isso não é só de quem tem influência de pai ou irmão. Eu mesma só tenho irmã e meu pai detesta futebol. A minha paixão pelo ópio do povo, por exemplo, veio da minha pré-adolescência carioca. Eu era uma garota de Laranjeiras que adorava jogar futebol com os meninos no play e era centroavante do time. Vocação? Não, é só gosto mesmo.

Quando o Glorioso ganha, eu me sinto a mais botafoguense das torcedoras. Quando o Botafogo perde, eu morro de dó do meu time lindo não ganhar. Não abandono a raça e, injustamente, aguento o sacarmos de muitos homens que dizem “Mas você é mulher, nem precisa torcer pro Botafogo! Deve ser a única torcedora do Brasil. Torce pro meu time gata, é bem melhor!”

Não meus queridos! Nem eu e nem muitas outras tchuchucas por aí vamos torcer por vossos timecos, mais ou menos pelo mesmo motivo que vocês não vão torcer pelos nossos. Não escolhemos nossos times por causa de namorico. Sou botafoguense, assim como há flamenguistas, são paulinas e corinthianas, pura e simplesmente por amor ao esporte (que romântico).

Alors, respeitem nossas escolhas. E da próxima vez que pensarem em fazer piadinha sobre mulher e futebol lembrem-se que esse papo de bola está cada dia mais calcinha.

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Café com banana

9 de setembro de 2010



Ouvi dizer que o Mocha Branco vai sair do mercado. Quase tive uma síncope. Impossível! Estou sofrendo de uma angústia antecipada. Vítima de uma fofoca descabida! Quem faria isso? Que crueldade! Na minha opinião, tirar o mocha branco do cardápio é como dar um tiro no pé. Já tem uma cafeteria que eu frequento que não serve mais o meu delicioso, que tristeza.

Só não tomo mais mocha branco por falta de espaço e também porque engorda. Mas praticamente tripliquei meu consumo. Em época de campanhas, crio a minha: Salvemos o Mocha Branco e as bananas!

As bananas? Explico. Lembro de quando estava no cursinho e falaram que as bananas de verdade iam acabar, seriam todas transgênicas. Eu tinha um amigo chamado Fifa* (sim, ele forçava a amizade) que ficou tão desesperado com a notícia que todo dia na hora do intervalo passava numa lanchonete e pedia uma vitamina de banana. Argumentava ele: “Vamos, pede uma vitamina você também, vai acabar!” Eu sempre ria, pensava em como ele era exagerado.

Agora entendo o Fifa... Que vou fazer da minha vida? Não bastava não conviver mais com o Jobim? E as pessoas que nunca provaram este café? Pensem na frustração. Vamos todos consumir mocha branco, assim não sai do cardápio. Será que essa é uma jogada de marketing para aumentar o consumo? Se for, está funcionando!

Fifa, homem sábio, confesso que não sei dizer se os frutos da bananeiras já são todos feitos atualmente por reprodução assexuada mutante. Nossa campanha pode ser uma causa perdida... Desculpe!

Aliás, depois deste post, sabe o que vou fazer? Sim, é óbvio, vou tomar um Mocha Branco. E talvez uma vitamina. Ah, mundo injusto.

* Aos que não sabem, FIFA significa Federação Nacional dos Forçadores de Amizade.

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Um tom a menos

6 de setembro de 2010



Ele foi embora. Esnobe. Estava claro que não suportava mais o meu pequeno apartamento, sentia-se sufocado. Precisava de espaço e de carinho e eu não dava nenhum dos dois. Reclamou diversas vezes que eu chegava tarde. Detestava ser obrigado a me esperar para comer.

A vida a dois não era mais a mesma. Os olhos azuis fugiam de mim. E mesmo quando eu abraçava-o, na tentativa frustrada de demonstrar meu amor, ele virava a cara, afastava-se de mim, algumas vezes me empurrava e me fitava com ar de reprovação.

Não pude mais discordar. Ele não cabia mesmo no meu apartamento estilo bloco da eu sozinha. Era preciso deixá-lo ir. Resignada, levei meu lindo gato de volta ao apartamento grande dos meus pais.

Agora sinto falta do ronronar, do nariz geladinho querendo carinho, das cambalhotas que ele faz para dizer como está feliz por me ver.

Sei que fiz o melhor para ele, Jobim estava muito infeliz passando dias e dias sozinho em um cubículo. Mas é como abrir mão de um pedacinho de mim. Foram tantos os momentos de cumplicidade, só quem tem um gato pode entender. Um gato como o TJ é um presente do céu, uma dádiva mesmo.

Com ele descobri uma capacidade de amar pouco egoísta. Queria muito que ele ficasse por aqui, queria chegar em casa a hora que fosse e ter seu miado alto. Mas sei o quanto meu pequeno bichano estava sofrido e precisava de carinho, espaço, atenção.

Parodiando o maestro homônimo digo:

Meu Tom Jobim
Não consigo te esquecer
Quanto mais o tempo passa
Mais me lembro de você.
Cadê minha bolinha de neve?
Cadê meu filhotinho, cadê?
E morro neste cubículo
De saudade de você.

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10 coisas tipicamente paulistas

26 de agosto de 2010

1) Influência italiana: a Pizza por metro (uma boa é a do Restaurante Graminha da Vila Madalena) é um bom exemplo. Assim como a Festa da Achiropita todo mês de agosto. Deus salve os italianos que vieram para cá;


2) A expressão Imagina!: experimente agradecer alguma coisa para um paulistano contente. A resposta instantânea é (i)Magina! Cuidado que essa frase pega. Se você não é daqui, em poucos dias vai sair por aí dizendo magina para as pessoas;

3) Bom descanso! É outra expressão bem paulistana. Essa eu adoro. Você trabalha o dia todo como um corno, no final do dia está com aquela cara de bagaço, aí o guardinha do prédio, o cobrador de ônibus e até o padeiro vão dizer: Bom descanso! Um bálsamo ouvir isso depois de um dia cheio e convenhamos, descanso é artigo de luxo nessa cidade;

4) Bala Pinho Campos do Jordão (também conhecida como balinha de sinal ou de metrô, jujuba de menta ou Valda genérica): Uma balinha ruim, molenga e esquisita, mas que vende como água em tudo que é semáforo;


5) Mostra Internacional de Cinema: Preciso comentar? Não vejo a hora de outubro chegar com a 34ª;

6) Modificar o sentido das palavras: paulista tem mania de chamar sanduíche de lanche, reduzindo todo o universo de uma palavra genérica como essa (que, aliás, tem sua raiz no inglês lunch, que significa almoço), café pingado de média e semáforo de farol, só citando alguns exemplos.

Experimenta passar numa padoca que você vai ver a plaquinha: “Temos lanche de metro”. Isso quando você não vai à praia e escuta: “Olha o lanche natural!”Triste mesmo quando se escuta: “Qual o lanche que vai querer? Cheeseburrrrguerrrr ou hamburrguerrrr?”. ô coisa irritante!

7) Padocas: por falar em lanche e padaria, as padocas (sim, padaria tem esse nome por aqui) paulistas são as melhores do Brasil. Fato delicioso! Quando passar na cidade do impossível aproveite para pedir o Bauru, um clássico! A Bella Paulista fica no coração da cidade e é 24h.

8) “De segunda”: paulista adora a preposição de antes de um dia da semana. Como irrita o: “De domingo vou treinar na academia”. Tem “de” de sobra na boca do povo.

9)Cumprimento rápido: O exagero com o “de” não se reflete nos beijos. Aqui se economiza beijos no cumprimento. É só um e olhe lá! Paulista tem pressa e não perde tempo com essas bobagens. Está na hora de começar a campanha: dê uma pausa, dê dois beijinhos!



10) Vingança: esta última é uma provocação, mas é também uma observação empírica. Homem paulistano adora mulher carioca. A cisma do paulistano médio é tão grande com o Rio de Janeiro que eles têm certo fetiche com as cariocas. É como se finalmente pudessem atingir os cariocas. “Ok meu, você tem a praia, o sol, a beleza, mas a carioca é minha, se f...!” E olha que os cariocas não gostam mesmo, sempre que sabem de um casal estilo ponte-aérea soltam um: “Tá namorando um paulista? Ah não! Agora fiquei bolado.”

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Enlatado paulistano


A história começa digna de um blockbuster americano. Duas pessoas bêbadas que se beijam em uma festa. Aconteceu aqui no Brasil por mero acaso. Porque poderia se passar no interior da França, sem sombra de dúvidas.

A festa estava lotada. Muita gente diferente. Muita bebida. Risos. Conversas políticas. A revolução bolchevique em pleno século XXI soava fora de propósito, até mesmo divertida. De repente reparei em duas pessoas. Foram apresentados um ao outro por um amigo em comum. O motivo era simples: o rapaz ia morar na cidade natal da moça e não conhecia ninguém, queria dicas, contatos.

Sabe aqueles casais que você não acredita? Não parecia paixão. Não daquelas de filme. Amor à primeira vista? Pfffff, passou longe. A menina, aliás, estava como uma borboleta: livre, leve, solta. E solta ficou ainda mais depois dos drinks com coca-cola. Vodka vai, vodka vem e dos ficaram. Não deu em mais nada. Eu estava observando. Juro! Não se pareciam, não combinavam. Era só mais um casal sem motivo. Poderia acontecer com qualquer um. Acontece sempre. Em tudo que é festa.

Mas olha que engraçado! Vi os dois há poucos dias, perambulando de mãos dadas numa tal avenida-cartão-postal. Impossível! Ele não tinha mudado de cidade? Eles não me viram, mas eu percebi que aquilo era um pouco mais do que os dois queriam admitir. Gostei do que vi.

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Une hirondelle

16 de agosto de 2010



Hoje pousou na janela do trabalho uma andorinha. Uma não, três. Andorinhas quase nunca andam sozinhas. Elas gorjearam e eu, que estava com fones no ouvido, achei que fosse interferência da caixa de som do computador. Quando fui buscar os pios, as vi cantando do meu lado direito. Andorinhas em plena Consolação? Impossível!

Imediatamente voltei à Santa Teresa. Era menina de novo, tinha cinco anos e meu avô me dizia: “Olhe Zé de Luca! As andorinhas." Depois passava a tarde contando histórias des les hirondelles. Ele brincava que elas viviam em uma família como a nossa e que eu era uma delas, podia escolher a que mais parecia comigo, “uma pequenininha, hein Zé de Luca?”

Meu avô não está mais voando com meu bando há alguns anos. É engraçado como a morte nos prega peças. Eu não consigo mais me lembrar bem como tudo aconteceu, porém ao ver as andorinhas, parece que foi ontem que meu avozinho faleceu. Tão magrinho e sofrido.

Uma das últimas visões que tenho dele é no seu último aniversário. A família quase toda se reuniu em um bar e os melhores amigos dele, todos músicos, tocaram chorinho. Foi a última vez que ele tocou o saxofone. Ele foi meu primeiro maestro. Estava tão fraco por causa do câncer que não sei se ele tocou de fato ou se eu queria que ele tivesse feito isso.

Acho que isso acontece com quem perde um ente querido. O tempo acalma, mas não apaga nunca a dor. Pelo menos as lembranças ficam como uma forma de manter viva a figura do ser amado. Algumas vezes, basta uma andorinha.

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Feitiço do beijo

15 de agosto de 2010



Fiz um feitiço de amor e mandei ao céu.
Era assim: toda vez que alguém se apaixonasse nasceria uma fadinha.
E toda vez que alguém desistisse de um amor verdadeiro, um anjinho desapareceria.

Dia desses, andando na Rebouças, pousou em mim uma carta. Dizia:

Senhora Feiticeira,

Por favor! Faça depressa um antídoto para seu feitiço.
Estamos perdendo muitos espíritos celestes por causa do desamor.

Prontamente respondi:

Desculpe, o encanto não sei desfazer. Mas crio um novo para consertar.
Agora, cada beijo bem dado aqui vale um anjinho perdido aí.

Feito meu trato, peço a todos:

Minha gente! Vamos lá!
Beijemos mais
Para o céu ajudar!
Afinal, isso todo mundo faz.

Pode ser qualquer um,
O amor de sempre
Ou até o incomum.

Mas aconselho: não pode dar beijo ruim
Que é para não perder a oportunidade
De salvar um querubim.

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Melhor assim



Esses dias, eu voltava de uma balada quando o celular do taxista tocou. Celular e carro não deveriam andar juntos, odeio motorista que atende celular quando está no trânsito. Esse taxista não atendeu ao telefone, mas o toque me chamou a atenção. Era a música “Pretty Woman” do Roy Orbison.

Perguntei o motivo de aquele ser o toque. Ele disse que era o toque da veinha (sic) e completou dizendo que depois de 30 anos de casamento ele tinha de agradá-la de vez em quando. A música era um presente.

Naturalmente, afinal, 30 anos não são 30 dias. Bateu um vento frio naquela madrugada, aliás, está relativamente frio por aqui. Qual será o segredo para manter o calor em 30 anos de relação?

Há pouco tempo conheci uma moça lindíssima, dessas que os homens fazem fila. Fiquei ligeiramente chocada quando ela disse que já tinha casado e descasado, antes dos 30. Também conheci o melhor amigo dela. Companheiros de longa data, ele foi padrinho do matrimônio. Estava lá quando o casamento acabou. Aliás, está lá desde os oito anos. O ex-marido era homônimo do melhor amigo. É um caso de amor escancarado, mas os dois não querem perceber.

Chego à superficial conclusão de que minha geração não sabe viver a dois. Sim, ainda somos jovens, mas essa ruptura com a tradição de ‘com esse para sempre’ não é nossa, é bem mais antiga. Década de 60, revolução sexual. Tenho amigos sessentinhas que dizem que minha geração é muito careta. Mas em um jantar com amigos da minha geração ouvi um “Querida, você é muito tradicional!”

Tradicional? Eu? Onde? Parei para observar. Já que duas gerações me acham enquadrada, resolvi fuçar o que há de errado comigo. D’accord com o dicionário Michaelis: Tradição é substantivo feminino. Do latim traditione. 1 Ato de transmitir ou entregar. 3 Notícia de um feito antigo transmitida desse modo. 4 Doutrinas, costumes etc., conservados num povo por transmissão de pais para filhos. 5 Conjunto de usos, idéias e valores morais transmitidos de geração em geração.

Acho que a tradição das últimas gerações é se separar. Quem não conhece um sem número de casais separados, recasados, etc? Isso faz de mim, antes de uma tradicional, uma rebelde! Ora, eu acredito no amor e sou constantemente criticada por isso. “Pare de sonhar! Pare de acreditar!”

Separar pode ser difícil, mas é bem mais fácil que permanecer junto. Minha geração, convenhamos, é acostumada com o fácil. Desde supermercados 24 h a sites de relacionamento. A superficialidade é algo que nos define, seja por louvar quem usa roupas de marca ou por ligar o ar condicionado com qualquer calorzinho. Esquecemos (ou nunca nos ensinaram?) de nos adaptar, porque é bem mais fácil mudar tudo por nossa causa. Nosso umbigo é do tamanho do mundo.

Não estamos sozinhos. Não podemos manipular tudo e todos. O desafio é entender que o fácil nem sempre é o melhor. Melhor é poder se adaptar. Poder aceitar as diferenças, poder suportar um calor de 30 graus (o planeta e as próximas gerações agradecem pequenos hábitos sustentáveis). Reciclar é palavra de ordem.

Isso vale também para o amor. É fácil ter todos e não ter ninguém. Mas é melhor? Se fosse, não existia tanta gente desesperada com a famosa solidão. Mais do que a fantasia de poder ter tudo ao seu alcance, proponho o: Aceite o que tem por aqui. Reinvente!

Confabulei para chegar à conclusão de que sou semi-tradicional (sim, é uma contradição em termos). Surpreendo tanto os tradicionais quanto os moderninhos. O importante é incomodar. Nem que seja só um cadinho.

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Distorcidamente tendencioso

29 de julho de 2010



Sucupira, ou seria melhor dizer, Marechal Deodoro, cidade onde foi filmada a maior parte do longa o Bem Amado, é de longe o melhor do filme. Adaptado para o cinema por Guel Arraes, as Peripécias de Odorico Paraguaçu já foram sucesso na TV. Isso lá na década de 70 e 80. Ficou no imaginário popular.

Quem nunca escutou a comparação entre tal político e Odorico? E as irmãs Cajazeiras então? Famosas Brasil afora. Drica Moraes faz a bêbada Judicéia, Zezé Polessa, a castíssima Dorotéia e Andrea Beltrão a amante Dulcinéia. Deixaram de ser beatas, como eram na TV. No cinema são peruas que divertem o prefeito e colaboram para o clima barulhento do longa.

Marco Nanini só não rouba a cena porque é o protagonista. Deixa isso para o assassino Zeca Diabo, em interpretação de José Wilker, que apesar de matador, é o único que não precisa impor-se no grito. O som cansa no filme, porque até quando ninguém fala, vem uma complementação sonora, algumas músicas são boas, mas a interpretação de Malu Magalhães era desnecessária. Matar o silêncio nem sempre é a melhor saída.

Por falar em morte, esta é o tempo todo exaltada na sátira política, seja pelo prefeito desesperando em ter um defunto para o cemitério da cidade, seja pela hipócrita oposição, querendo a morte do que o prefeito representa. O comunista Wladymir, representado por Tonico Pereira, é capaz de mentir, aceitar propina e
subornar vereadores, tudo em nome do povo.

Povo, aliás, utilizado como massa de manobra e representado por seu Moleza, atuação de Edmilson Barros, um cachaceiro que é a mistura de Nezinho e Chico Moleza, ambos da história original. É um espelho pra lá de distorcido do brasileiro, embora a atuação seja boa. Mas essa não é a única falha do filme, cheio de discursos partidários.

Não precisava, por exemplo, comparar o tempo todo Sucupira com o Brasil, muito menos no globo terrestre. Só faltou o Guel Arraes aparecer na tela e fazer entre aspas com os dedinhos. Não ficou engraçado, ficou chato e forçado. Também era desnecessário mostrar o Lula no filme. Tornou o tom ainda mais panfletário. Ok! É ano de eleições, uma boa oportunidade de fazer o cidadão pensar. Pensar é diferente de propagar em todo o Brasil uma mensagem tendenciosa.

Não por acaso, o único ser decente de toda a história era comunista e revolucionário, o narrador Caio Blat. E o vilão bonachão, um conservador de marca maior. Hoje em dia é quase um crime ser capitalista, ou melhor, ser de direita. Mas é sabido que a corrupção é um mal capital, não partidário.

É por isso que Marechal é de longe o melhor do filme. A cidade pequena do estado de Alagoas é banhada por beleza natural, como a lagoa Manguaba, mostrada perto da prefeitura de Sucupira e a praia do Francês, amada por turistas do mundo todo e cenário do amor do fotógrafo (Caio Blat) e da filha do prefeito (Maria Flor).

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Um Ipê para chamar de meu

13 de maio de 2010


Foto retirada da internet

Fui à Brasília no último final de semana. Revi amigos, ajudei pessoas, conversei com minha avó. Sempre naquela correria para estar com quem mais amo nem que seja por uma horinha. Dessa vez fiquei boba de pensar que a cidade muda tão rapidamente que em pouco tempo não saberei mais qual a cafeteria da moda ou a feirinha descolada.

Tudo isso, claro, pode ser perfeitamente substituído pelas inúmeras novidades da cidade do impossível. Mas tem uma coisa em Brasília que não vi em nenhum lugar de São Paulo.

Ipês.

Foi dirigindo na Asa Norte que me dei conta de um lindo, roxo, cheio de flores me saudando no primeiro dia do fim de semana. Tomei um susto! Não lembrava como era gostoso ver os Ipês florindo.

Porque não há ipês em São Paulo? A cidade ficaria tão mais bonita.

Proponho uma campanha, ela se chamaria: Eu quero Ipês paulistanos! A árvore símbolo do Brasil precisa estar mais presente por aqui. E para coroar a campanha, faríamos quiçá um bairro chamado Ipês (afinal, são bem mais bonitos que pinheiros, por exemplo).

A campanha viraria proposta de lei e com a participação popular chegaria o dia em que veríamos plantados os primeiros arbustos. Todo mundo acompanharia o processo dos ipês colorindo. Os lilases, rosas, amarelos, brancos!

Então, em um dia qualquer eu andaria serelepe pela cidade e me depararia com um cheio de cachos amarelos. Como a um amor à primeira vista, meu coração subitamente palpitaria e eu sorriria para ele. Reconhecendo-o com a certeza de que, aquele, era um Ipê para chamar de meu.

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Olha a tapioca!

5 de maio de 2010


Foto: Casa de Farinha em Alagoas

Pensou que era impossível encontrar tapioca na Paulista? Não mesmo!

O Bazar do colégio São Luis, aquele que tem aquela igreja na Paulista, sabe? Agora tem uma mulher que faz tapioca. Oba! A tapioqueira é pernambucana e morou uns bons anos em Maceió. Disse que já está na cidade do impossível há 18 anos.

Conversei um bocado com ela sobre as delícias das Alagoas enquanto esperava a minha tapioca de queijo com côco. Estava com água na boca! Na hora de pagar descobri que a ajudante dela é carioca. Eita mundo pequeno!

E era uma carioca apaixonada por São Paulo. Disse assim pra mim: “Quando eu vou pro Rio fico com raiva porque o povo só fala com gíria por lá”. Fiquei com vontade de soltar um: Ô loco meu! É que no Rio, os mano são tudo marrento mesmo. É que, meu, carioca é assiiim, de domingo só quer irrrr pra praia, de sábado é dia de balada, ninguém trabalha mina. Só nego sussa.

Bom, eu não disse isso, claro. Engoli meu bairrismo desnecessário e esperei a tapioca quentinha. Ah! Elas também vendem a massa de biju, eu não comprei porque não vou fazer tapioca só pra mim, tem nem graça. Mas fiquei tentada...

Quanto ao sabor da tapioca? A massa estava ótima, o côco podia estar mais fresco e eu preferia o recheio com queijo coalho no lugar da mussarela. Mas achei o máximo uma tapioca no coração da Bela Cintra. Nem sonhava com a possibilidade.

O preço? Baratinho! Custa só R$ 3,00. E o bazar tem outras belezocas como roupinha de bebê, maquiagem, artesanato, mel, etc. O espaço fica aberto alguns dias todos os meses(se eu não me engano). Neste mês os dias do bazar são: hoje, amanhã e dia seis. E agora com direito a tapioca saindo da frigideira! Ainda dá pra comprar coisas originais para o dia das mães! Recomendo!

Serviço:
O bazar fica na Rua Bela Cintra, esquina com a Rua do Colégio São Luis, antes da Luiz Coelho e depois da Avenida Paulista. Abre às 10h e fecha às 20h.

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Apologia ao ego

27 de abril de 2010


Paulistano adora autopropraganda. Aliás, São Paulo é um marketing por si só. Esse blog mesmo, não passa de um merchandising do tipo: ”Compre São Paulo para você também”.

Aqui o mercado vai bem além do óbvio. Hoje ouvi duas mulheres conversando: “Sabe a Marisa? Ela vem mandar em mim, dá uma raiva. E o pior, as pessoas gostam dela. No fim das contas quem faz tudo sou eu. Porque as pessoas gostam dela? Não entendo!”

E a resposta foi: “É que a Marisa faz marketing pessoal!”

An? A Marisa tem marketing pessoal? Agora safadeza mudou de nome?

Eu tenho a sensação que qualquer hora vão criar uma lei estadual para a pessoa virar empresa. Não vai mais existir pessoa física. Ser humano é tão século XX, démodé demais!

Já reparou como aumenta o número de pessoas que trabalha como PJ? No trabalho e nos círculos sociais temos o tempo todo de manter bons relacionamentos interpessoais (que o diga a Marisa), além de fazer marketing profissional para a galera do Corinthians e ter extenso network. Estamos nos vendendo o tempo todo. Cadê o CONAR para ajudar?

Outro dia li em um site: “saiba como explorar mais seu capital erótico”. Para ter capital erótico a receita de bolo é bem simples: seja belo, atraente, sociável, bem apresentado, antenado e fértil. Pronto, facílimo!

Pense que se você for feio, pode chamar o Ivo Pitanguy. Se não tiver sex appeal, é só fazer um curso de massagem tântrica. Caso tenha timidez, faça teatro. Cafona? Shopping with one personal stylist! Para quem não está conectado com as tendências, iPad you, já! E se você não é fértil, tá moleza, in vitro serve pra isso.

Mas nada disso adianta se você não tem borogodó! Também conhecido por le joie de vivre. Ahh, você não nasceu a Carla Bruni? Então desolé!

Em São Paulo esse egomarketing pauta a vida das pessoas. Cansei de ouvi que fulano tem um coach, beltrano tem um livro de auto-ajuda que ensina como trabalhar seus medos que nem você sabia que existia e Ciclano vai dar uma palestra sobre o segredo de um casal bem sucedido, rico e que vive 258 anos juntos.

Ah sim, claro! To acreditando nisso tudo. Mas e daí? Se você não quiser ser o mestre kama sutra do capital erótico? Qual é o problema? Se seu marketing pessoal não está crescendo nas pesquisas do twitter, o que eu tenho com isso? Como diz uma mulher sábia: “No final é tudo terra na cara!”

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Declaração candanga

22 de abril de 2010


Foto: Luisa Picanço

Declaro para os devidos fins que eu amo Brasília. Acabei de me dar conta. Eu a amo como se ama um homem confuso e perturbado, que você faz de tudo para não amar e ama mesmo assim. Você foge dele, só para depois sentir falta.

Daqueles amores difíceis (quase nenhum amor é fácil, só os perecíveis), mas perenes. Tenho a tendência de só perceber um amor quando ele não está ao meu alcance.

Ontem eu nem lembrei da capital federal. Tive um feriado paulistano. Com direito ao Conjunto Nacional (este nome sempre vai me lembrar o primeiro shopping candango), cineSesc, shopping Pátio Higienópolis e à rodoviária do Tietê.

Convenhamos, amores mal resolvidos sempre merecem uma segunda chance. Então preciso dizer, com todo meu exagero, que eu sou completamente apaixonada por Brasília. Amo dirigir no Eixão às 4 da manhã, amo andar no parque olhos d’água.

Nada no mundo me dá mais felicidade que ver a varanda da casa dos meus pais do eixinho. Aquela sensação de “agora estou no meu lugar”, onde ninguém questiona se eu sou carioca, paulista ou nada. Lá se respeita a migração, porque é disso que a cidade é feita. E se cultua a cultura nordestina. Carne-de-sol é referência de comida, forró é a balada da sexta.

Sou tão apaixonada pela capital que não consigo imaginar universidade melhor que a minha, nenhuma é mais bonita, ela também virou cinquentinha ontem. E não há quem ame mais o Martinica que eu. Nem o Café da Rua 8. Foi no cerrado que aprendi a beber café.

Quando alguém fala mal de Brasília, tenho vontade de defender. Eu falo mal do quadradinho há mais de 20 anos. Mas não permito que um paulistano tenha a cara-de-pau de me dizer que aquela cidade não presta, que só tem político, etc. E carioca que me pergunta se eu conheço o presidente? Pelo amor de Deus, vá conhecer o DF, meu filho!

Perdoem o clichê, amo mesmo o céu candango. Um céu que tem cara de céu, cor de céu, tamanho e dimensão de céu. Como deve ser. Sem prédio para atrapalhar, sem montanha para competir, sem nuvem para esconder. Um céu nu, descarado, debochado. Aquele lado do homem perturbado que faz você insistir no amor. E de repente quando você menos espera, está lá a paixão escancarada e você sabe exatamente o motivo.

Amor é assim mesmo, bom ou ruim, saudável ou corrosivo, se é amor, não sai nem tão cedo. Como disse, eu amo Brasília. Ufa! Sabe quando você tira um peso das costas? Uma caixinha a menos na minha lista de amores mal resolvidos.

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Pedacinho carioca

19 de abril de 2010


Estou com uma estúpida saudade do Rio. Estúpida porque não dá pra matar. E tudo isso porque Pinheiros me lembra a Guanabara.

Meu Rio de Janeiro... Hoje queria poder caminhar na Rua Pereira da Silva até o Largo do Machado. Chegando lá, saudaria um bom número de pessoas vestindo a camisa do meu time ou quem sabe iria até uma banca só para ver o pôster do glorioso time da estrela solitária. E comentaria: 'puxa, que foto linda' mesmo com a pose cafona dos jogadores, só por amor ao futebol.

Queria comer sanduíche no Cervantes com Denis Matos, Bruno Barão e Naninha Trapicheira, lá pelas cinco da matina. E sentir o cheiro de livro velho na biblioteca da FND, em época que eu acreditava no CACO e passeava pelo Saara.

Estou com aquela vontade de encontrar meu primo que mora nas Laranjeiras com seu all star super azul, para botar o papo em dia e nadar no play.

Tenho um desejo de mais tardes regadas a mate gelado e sol de rachar. Com direito a pão de queijo e recital de poesia na Rua Inhangá. Poderia só mais uma vez encher as paredes de casa com réplicas do magnífico J. Carlos? E comprar temperos de tonel, com aquele cheiro gostoso de pimenta dos armazéns?

Ai, como gostaria de ouvir o seu Madruga gritando “Carteirinha na mão, carteirinha na mão”! Segunda-feira era dia de Hino no Bennett: “Alma mater, seu hino de glória, seja audaz, juvenil, triunfal...”

Hoje eu queria sair do trabalho e comer quindim de camisola lá na confeitaria Colombo. Tudo bem! Está floreado este texto, estou me sentindo com o estilo do Casimiro de Abreu e seus oito anos! Até parei com a sessão nostalgia.

O fato é que tenho feito em minha mente maluca uma associação entre Pinheiros e Copacabana. Deve ser delírio de tanto aspirar poluição...

Quando falei disso aos amigos paulistanos, o riso comeu solto. Mas juro, vejo uma bizarra semelhança entre a Teodoro Sampaio e a Nossa Senhora de Copacabana, assim como acho que a Cardeal Arcoverde parece com a Barata Ribeiro. O mesmo buchicho, aqueles muitos ônibus em uma rua apertada, a facilidade de ter tudo naquelas ruas. Sei lá. Pinheiros parece que tem outro ritmo, diferente do resto da cidade do impossível.

Ok! São dois mundos completamente distintos, mas um vai sempre me remeter ao outro. Só deixo a Atlântica sublime e intocável, cheia de pivetes e camelôs durante o dia e suas prostitutas na noite alta. O oposto da feia, porém útil e bem mais segura, Avenida Rebouças.

E ninguém ouse me tirar esta associação improvável! Afinal de contas, eu encontrei meu pedacinho carioca no coração paulistano. Nada mais justo para uma candanga.

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Jardineiros

14 de abril de 2010


Foto: Jardins de Notting Hill

Atualmente tenho andado muito pelos Jardins e me pergunto: em que planeta vivem os jardineiros paulistanos? No planeta das flores? No planeta dos metidos a ricos e famosos? Ou no planeta dos alienados? Com certeza vivem no mesmo planeta que o pessoal do Itaim Bibi.

Enquanto andava por uma rua dos Jardins, vi um lugar que se chamava conexão Paris. Conexão ZL não tem, né? Claro, vamos todos ignorar a grande massa de pessoas que vivem em péssimas condições no nosso quintal. Que tal uma conexão Morro dos Prazeres? Ou até uma Conexão Tabuleiro dos Martins? Nada feito.

A sensação que me dá, e me desculpem se discordam, é que estou em outra cidade, não é São Paulo. Nem parece que a rua da Consolação é logo ali, ou que é só esticar o passo e você está no Anhangabaú. Na verdade, tenho a nítida impressão de que vou mesmo chegar a Paris ou Nice ou até em um lugar chamado Notting Hill. E por quê? Que irrealidade é esta no coração da cidade? Quem mora aqui sabe que o que separa a pobreza da riqueza em São Paulo, às vezes, é uma avenida, ou um muro, como no Morumbi. Todo mundo aceita isso? Pra mim tá difícil de engolir.

E o pensamento de alguns seres que habitam os bairros nobres da paulicéia? Ontem mesmo vi um babaca no almoço que me deu vontade de meter a mão na cara. Era um cara que soltava umas frases tipo “Fulana é gostosa, mas tá precisando de uma academia, também tá quase com 40 anos, né?” Ou “ Ah, pois é, Beltrana? Engravidou, tá um dragão! Era a mulher mais gostosa do trabalho, uma delícia.”

Ainda foi tirar onda com os amigos: “No meu flat sempre dou caixinha para os caras que trabalham do outro lado do balcão, aí eles me dão de volta um belo café da manhã, mas eu não dou caixinha por isso, dou porque tenho pena, mas olha só que legal, eles me dão um puta café”. Em vez de dar caixinha para NÃO ganhar café, porque não ajuda uma instituição de caridade? Fútil filho da mãe.

Outra pérola do babaca foi quando chegaram duas vendedoras de pano-de-chão à mesa dele. Um outro cara da mesa comprou 6 panos por 10 reais e o cretino, não satisfeito em me fazer ouvir as burrices que fala, vira pra uma delas e fala: “ Você come mais que ela, né? Dá pra ver” A coitada da gordinha sorriu sem graça e ele finalizou “Que sacana! Tá bem mais gorda que ela, fica explorando a coitadinha”

Sacana? Sacana é ele! Fiquei tão indignada que tive até indigestão! Jura que tem gente que pensa assim? Em plenos Jardins? O dinheiro não ajuda a pensar no outro? Nem um pouquinho? Impossível!

Perdoem a mania de moralismo, não é que tenho tendências comunistas (que fique claro), mas aos jardineiros paulistanos proponho que plantem flores no resto da cidade. Parem de viver neste mundinho tão cor-de-rosa. O cinza começa logo ali na esquina da Paulista com a Consolação, sentido centro. Ok?

P.s revoltado: Ainda acho que aquele babaca merece um vômito na cara. Pena que não lembro a cara dele...

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Uma palavra chamada sonho

12 de abril de 2010


Foto de André Bonacin
Nascer do sol paulistano

Ontem foi uma noite memorável com direito a bolo de cenoura, caipirinha de tangerina, coca-cola e mortadela. Também teve mala, rato e estante. Lá no meio da bagunça, madrugada alta, tinha uma moça saindo do forno (e do fogão, recém instalado), em uma nova etapa de vida, a cabeça fervilhando. Eu e minha mania de sonhar. Com vodka, engraçado, sonho ainda mais.

Sonho porque sonho é de graça. Ontem sonhei que dava para ver o sol nascer em São Paulo. E fui à rua comprovar. Angélica acima. O sol nascia e eu andava. E, a cada passo, sonhava. Bem, foi sonhando que cheguei à Consolação. Diga-se de passagem, desconsolada com meu sonho, meus medos, meus anseios.

Mas dessa vez não vou parar de sonhar, já chega. Porque de novo o bom senso me diz para parar de sonhar. “Para moça, que mania de viver no mundo das nuvens”.

To avisando logo bom senso, cansei de seguir você. Dessa vez basta! O sonho é meu, você é que já devia estar bem pra lá das nuvens. Em bom paulistanês: vaza!

Afinal, desde quando sonho é feito de bom senso?

Acabei vendo o sol rebento quando já estava do lado de casa. E aquela brisinha marota da primeira hora da manhã me disse: “Isso aí, não para mesmo de sonhar”.

É, por mais estranho que pareça, acho que meu sol tá começando a despontar na cidade do impossível.

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Um domingo qualquer

29 de março de 2010


Foto: Luisa Picanço - Chocolataria grenoblois


Santa Cecília, Paraíso, Ana Rosa, Vila Mariana, Vergueiro, Aclimação, Tatuapé. Tudo embalado para domingo. E eu vivendo cada um dos momentos com meu entusiasmo típico.

De manhã na Santa Cecília, desci rumo ao metrô e lá bem pertinho tem a igreja de Santa Cecília. Tinha um milhão de católicos com raminhos. Domingo de Ramos. Cheira a páscoa, né? O dia em que se começa a semana Santa.

Depois da igreja tinha uma feira. Primeira grande fartura de odores do dia. Aquela mistura de laranja e peixe, sempre tão característica... Detesto, mas respeito.

No Paraíso tive vontade de almoçar sushi. Vontade compartilhada por dois bons amigos. Descemos via Ana Rosa (que cheira a metrô) até a Joaquim Távora na Vila Mariana. Surpresa? O sushi tinha fechado. Impossível! Comemos carne-de-sol. Carne-de-sol, para mim, tem sempre o cheiro de Brasília.

Saí correndo da Vila Mariana, pois estava atrasada para meu primeiro encontro com o budismo. Achei engraçado conhecer outra religião no Domingo de ramos. Aos que gostam de teologia, foi neste dia que Jesus Cristo chegou à Jerusalém em um burrinho para comemorar a Páscoa Judaica. Judaísmo, Cristianismo e Budismo, tudo em um só domingo, que delícia!

O lugar do templo budista tinha essência de quê? De gibi, com certeza. E também de ar-condicionado, sabe? Aquele cheiro de ar-condicionado, não sei como as pessoas aguentam... Saí de lá um tanto decepcionada porque esperava bem menos da filosofia budista. Um menos que era mais, o que é difícil de explicar.

Já na rua senti a chuva, aquele perfume apaixonante de terra molhada.

Cheguei em casa, troquei a roupa molhada por uma seca e quentinha (amaciante sempre lembra roupa limpa, né?) e saí rumo ao Tatuapé para comprar ovos de páscoa.

Meio óbvio que o odor da vez era o chocolate. Remeteu-me imediatamente às chocolatarias francesas. Impossível esquecer o cheiro de uma chocolataria. Tem uma no Leblon que tem o mesmo perfume das francesas. Ainda não achei uma aqui em SP, mas com certeza tem.

Depois tomei um mate com um amigo. Mate me remete ao Rio. Não há como negar. Voltando pra casa, passei pela Sé, tem um cheiro de guardado, meio sujo, sei lá. E também me lembra biscoito recheado de morango (não sei por que).

Cheguei a uma boa conclusão: São Paulo começa a ter aroma para mim. Adoro odores. Em outra vida fui perfumista. Demorou mais que o meu costume, mas acho que agora já reconheço olfativamente a cidade. Tem cheiro de café, chocolate, chuva, feira, metrô, ar-condicionado e shopping.

Também lembra carro, molho de tomate (hum! daqueles com muito alho e cebola) e mortadela. Experimente sentir estes aromas da próxima vez que andar por aqui.

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Fênix

27 de março de 2010


"Nossa Senhora de Aparecida" - Ronaldo Mendes


Hoje fui à igreja São Luís. Aquela que você acha bizarra, no fim da Paulista, sabe? Lembrei de você. Sempre lembro. Lembro do dia que soube que você estava com um nódulo no pescoço. Eu ainda não morava aqui e você ainda não morava na Suíça.

Mas eu estava na Consolação e entrei justamente nesta igreja, pedi a São Luís que lhe curasse. Fiz mil promessas pra ele e pra Nossa Senhora. Até Cururupu eu prometi conhecer. E ainda devo uma missa pra eles na cidade de São Luís do Maranhão. Tudo por sua causa.

As promessas valeram.

Mas você precisava estar tão longe de mim? Por que foi mesmo que eu deixei você partir? Devia ter concordado com seus pais, nada de ir morar tão longe. É que eu achava que seria bom para você. E não foi? Para seu crescimento, desenvolvimento, relacionamentos, mas, na verdade, pra mim (com o perdão da rima fraca) é um tormento. E que coisa mais feia não me responder os e-mails, até parece que não sente minha falta. Eu sei que sente.

Menina mal criada! E eu sinto tanta a sua falta que fico com vontade de ir à nossa cidade, só pra ver se consigo sentir você mais perto de mim. São Sebastião que a proteja, minha pequena.

Tudo o que eu mais quero na vida é que você seja feliz, sem nódulos (já combinei tudo com São Luís e Santa Maria) e que, bom, morando em Genebra ou em Santa Catarina você mande um e-mailzinho só de vez em quando para eu saber que está tudo bem, pode ser?

Por que saudade é assim? A gente mata, ela renasce. Parece fênix. Que coisa! Foi por causa dela que eu resolvi escrever. To tentando enrolar a danada, mas ela é bem mais esperta que eu, confesso. Depois deste texto estou com mais saudade ainda de você.

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Cor-de-céu-paulistano

15 de março de 2010


Foto original no blog gente de lisboa

Tive um sábado impossível. Impossível para o meu bobo mundo cor-de-rosa. Começou bem, fui ao teatro com uma amiga, coisa mais normal do mundo no meu universo.

Depois de lá, as colegas dela nos chamaram para uma baladinha. Topei. Fui e vi meu mundo cor-de-rosa entrar em choque com a realidade cor-de-céu-paulistano.

No meu universo particular as pessoas não são idiotas, as pessoas não são fúteis e as pessoas definitivamente não usam drogas. No meu mundo cor-de-rosa, as flores são cheirosas, os animais são nossos amigos, há momentos de extremo prazer ao cozinhar para amigos e as pessoas são confiáveis. E eu me esforço pra entender o outro e eu sofro pelo outro no meu mundo. Desculpem se tendo a alienação, eu tenho a péssima mania de ser otimista.

No meu mundo-cor-de-rosa, quando algo dá errado ou a gente resolve ou é porque tinha de dar errado. Quando, por exemplo, um casal não fica junto é porque não queria mais. E uma fadinha morre sempre que um amor se desfaz neste lugar só meu. Ok! Sei que sonho muito e vivo tipo uma Lisbela. D’accord!

Mas na maldita realidade paulistana, vejam só, as pessoas são fracas. As pessoas, no mundo de verdade, coitadas, elas se drogam, se prostituem e são covardes. Por quê? Não dá para ver a estupidez disso tudo? E eu, daqui do meu céu coloridinho fico com raiva e com pena. Com muita pena.

E eu conheço pessoas na realidade paulistana. E eu não posso fazer nada pra ajudar os pobres seres humanos fraquinhos que não têm estrutura para mudar de mundo. Não gosto do sentimento de impotência, porque ela definitivamente não faz parte do meu universo. E quando ela bate na minha cara, é muito triste.

Eu vi um humano tão fraco no sábado e eu não fiz nada para ajudá-lo. Podia ter batido na cara dele, acho que ajudaria. Faria o que pudesse para ajudar, mas é preciso que a pessoa queira ser ajudada. Fico pensando, o que eu realmente posso fazer? Eu também sou humana, cheia de defeitos e fraquezas.

Ver o mundo que vi no sábado, tão cheio de coisas que fazem mal para o corpo e também para a alma e ver aquelas pessoas tão sofridas (sem sequer saber que estão sofrendo) doeu muito.

Como eu queria contaminar o mundo gris com meu céu cor-de-rosa. Mas quem já viu rosa acinzentado? Não existe. Resta-me ficar aqui com minha mania de Lisbela no país do concreto.

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II - Das paixões que vemos por aí

26 de fevereiro de 2010


Foto: Robert Doisneau

Ela descia pela Augusta, carregada de sacolas. Fez compras e mais compras nas galerias da mais charmosa rua paulistana. Andava despreocupada e sorridente afinal, que mulher não gosta de comprar coisas que a deixe mais bonita?

Ele estava correndo, preocupado com uma entrevista de trabalho. Corria como todo bom paulistano, ele subia a Augusta.

Foi quando esbarraram. Na pressa, ele derrubou todas as sacolas da moça. E por isso eles se olharam. Paixão fulminante.

Ele mal conteve o sorriso e não pôde fazer diferente, teve de ajudá-la. E fez isso com muito prazer, pedindo mil desculpas. Esqueceu da entrevista, da pressa, do que ia fazer. Ela sorriu de volta, os olhinhos brilhavam. Achou engraçado o jeito desengonçado do moço. Nem se incomodou de ter suas compras Augusta abaixo.

O cara era esperto. Trocaram telefone. Do encontrão surgiu um encontro.
Ele ligou, chamou-a para uma matinê. Ela aceitou. A tarde era de garoa. Ela foi com um vestido tomara-que-caia preto com bolinhas brancas, comprado na Galeria Ouro Fino. O coração estava acelerado. Saíram depois disso quase todos os dias.

Começaram a namorar.

O namoro virou casamento. Casaram na Igreja Nossa Senhora de Fátima, no Alto do Sumaré. Ele, paulistano da Mocca. Ela, paulista de Presidente Prudente. São casados há 28 anos. Moram em uma casa bem grande no Alto da Boa Vista e têm três filhos. Ele trabalha até hoje no escritório em que foi fazer a entrevista. Costuma chamar a esposa de “estrela da sorte”. Ainda são apaixonados e têm aqueles mesmos olhinhos brilhantes.

Casar a partir de um esbarrão? Só em conto de fadas? Nada disso, história real. Foi uma das filhas do casal quem me contou este romance digno da cidade do impossível.

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Pocket-balada

21 de fevereiro de 2010


Como descrever a última sexta-feira? Paulistana ao extremo! Impossível não gostar, foi um mix de sensações diferentes.

Um dia de muito trabalho como costumo ter nas sextas-feiras. Saí depois das 20h. Meio adoentada, achei que ia ficar em casa. Mas tomei coragem e fui parar no sambódromo, tinha um convite para entrar em um camarote, só um, tudo programado para ter uma noite do tipo bloco moi avec moi-même.

Desci na estação Tietê e depois peguei a ponte-orca. Sentei ao lado da Vanessa (uma simpática mulher gorda que vende coxinhas no centro da cidade e não perde o desfile paulistano por nada). Ela puxou conversa, perguntou se eu tinha convite para entrar e depois me contou indignada que uma vez comprou ingresso de um cambista, o ingresso era falso (jura?) e a coitada teve de comprar outro ingresso. No final da história ela ficou sem dinheiro para comer uma noite de carnaval inteira.

Chegamos nos portões do sambódromo. Coloquei a camiseta do camarote e fui andando. O tal do camarote dava direito a customização de camisetas, pista de dança, comidas variadas, bebida à vontade (lembrei da pobre Vanessa). Tinha ainda ilha de massagem, cabeleireiro, e claro, uma vista para o Anhembi e o desfile das escolas campeãs.

Passei boa parte da noite sozinha, sambando a la paulista, entendendo meus sentimentos confusos, tentando me encontrar nesta cidade louca. Foi aí que me lembrei de dois bons amigos que com certeza estariam na balada e mudei de planos – da Sapucaí paulistana para a Augusta brasiliense.

O itinerário deles era o “Estadão”. Pensei, ué, mas o jornal não fica no Limão? Esse povo vai dar plantão? Dei boas risadas quando descobri que os meninos iam para o bar Estadão, que tem um dos mais tradicionais lanches de pernil da cidade(preciso comentar que paulista não sabe que existem outros lanches além de sanduiches...) e uma coxinha famosa (lembrei da Vanessa de novo).

Encontrei com eles no meio do caminho, na altura da Gomide. Dois brasilienses, uma carioca, dois gaúchos e um paulistano nato, nosso guia de noitada. Um pouco depois disso o paulista indica um boteco bem pé sujo pra gente entrar e... PLIM! De repente, vira uma balada! Do nada! Quero dizer, você entra, fica desconfiado que é um prostíbulo (afinal, estamos na Augusta de madrugada), dá mais um passo e pronto, tem uma galera dançando música eletrônica. Um dos meninos definiu o espaço (0800) como uma espécie de pocket-balada, ou seja, cabe no bolso e é divertida.

Já na lanchonete, os meninos comeram a tal da coxinha e o sanduíche de pernil. Ficamos falando de nossa vida semi-paulistana e a noite terminou ao descermos uma escadinha embaixo do Diário de S. Paulo. Era uma balada trash, ou melhor, underground, com luz negra, um povo com cara de doidão e um reggae muito ruinzinho. Diz o paulistano que lá estava miadinho. Miado ou não, resolvemos sair e esperar o metrô abrir, afinal faltava dez minutos para isso. Ainda conversamos mais meia hora sobre a campus party e uma cidadela no interior de Minas que só começou a ter eletricidade em 2009, praticamente o negativo de São Paulo...

Depois enfrentamos um metrô lotado de trabalhadores. É incrível o choque diário de realidade que existe por aqui, basta querer ver. 5 da manhã e as pessoas lotam metrôs para trabalhar em pleno sábado. A cidade não para mesmo.

Tudo aqui pulsa rapidamente e eu posso dizer que tive uma das noites mais paulistanas da minha vida. Uma noite dessas é praticamente impossível de se repetir.

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