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Confete paulistano

9 de março de 2011

Carnaval de Arlequim - Joan Miró

A pipa do vovô não é mais a mesma. Nem o carnaval paulistano. Enquanto escrevo esse texto, tem um monte de foliões aqui embaixo. Estou no coração da cidade do impossível e amanhã é quarta-feira de cinzas. Quase todo mundo vai trabalhar. Mas e daí? Quem diz que em São Paulo não tem carnaval certamente não conhece essa cidade.

São Paulo tem muita folia sim. Se você ficou por aqui e não aproveitou as festas, admita, foi porque não quis. É isso mesmo. Assim como o vovô moderno hoje pode tomar um remedinho da felicidade e alegrar a vovó nos dias de feriado, foi-se o tempo em que você não poderia curtir um sambinha na cidade do impossível. Em 211, você poderia ir atrás do bloco do Minhocão (que não tem nada a ver com a pipa do vovô, hein?) ou poderia ir à Praça Benedito Calixto. essa praça anda mais lotada que nos dias de feira! Isso sem falar do Carnaval da Vila, o bloco da Alameda Santos e outros tantos.

Calma! Não vou falar de todas as possibilidades que você perdeu por aqui. E antes de me xingar por só postar esse texto hoje, deixo algumas dicas da ressaca do carnaval. Ainda dá pra aproveitar:

Na quinta, de acordo com o R7, tem a ressaca paulistana no Camarote da Brahma no Anhembi.

Na próxima sexta, tem o desfile das campeãs, também no Anhembi. Fui ano passado, é bem animado! Os ingressos você pode comprar no ingressofacil.com. A Folha tem uma matéria sobre o assunto.

O Bar Brahma também é sempre uma boa pedida de samba na cidade, mas prepare o bolso, não é muito barato. Que tal no próximo sábado? A Vai-Vai toca lá 2h da manhã e antes disso tem Baile de Carnaval. Dá uma olhada no site.

Se ainda estiver no pique, tem Gambiarra no domingo dia 13 – essa festa super animada sempre tem um clima de carnaval. Quem já foi sabe do que falo. http://www.gambiarraafesta.com.br/

Quantas vezes não ouvi “Carnaval em São Paulo? Impossível!” Provado que isso não passa de uma lenda! Mas vamos combinar, de todas as marchinhas de carnaval, a que mais combina com o espírito da cidade é sem dúvida: “Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí! :)

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Luisa na cidade do impossível

27 de janeiro de 2011


Cheguei em casa para escrever um texto completamente diferente, mas lembrei de um sonho antigo. Quando menina sempre quis ter um castelo. Lembro de falar disso com meus pais e irmã. Era um dos meus sonhos mais fortes. Nunca quis um príncipe num palácio, eu queria era um castelo para fazer um hotel de luxo.

Lembro até de um diálogo: Não, não quero que um príncipe me dê um castelo, quero comprar um pra mim! A realidade era sempre: “Faz ideia do preço de um castelo?” No que respondia sem titubear: Serei rica.

Hoje ainda não tenho muita noção de quanto custa um castelo, mas acho que com a profissão que escolhi, no máximo, depois dos 50 anos consigo comprar uma pousadinha mixuruca em Cabo Frio.

Aqui entre nós, príncipes são chatos. Eles são clichê demais para uma menina (ou uma geração?) que queria ter um negócio lucrativo desde os sete anos e cuja personagem favorita era Alice no país das maravilhas.

É, confesso, não era muito fã da boring cinderela que ficava lá a espera de um príncipe para salvá-la (gente, tem de ser mais proativa, alô!) ou da vagal da bela adormecida que preferia tirar uma soneca a aproveitar a vida. E a Jasmine comunista a la Stalin? A menina tinha muito preconceito com gente rica, mas morava no maior bem-bom. Assim até eu. Ah! Não vou nem falar da nerd da Branca de Neve que só tinha amigo bicho até os anões ficarem com pena, né? A burrinha ainda aceitou comida de estranhos, tão amadora...


Jasmine, minha primeira decepção com comunistas...

Heroína mesmo é uma moleca que vai atrás do que quer (um coelho branco?), tem como guru uma lagarta, quase cai na lábia de um gato safado, fica amiga de uns pancadas que tomam chá e em busca de seu sonho briga até com uma rainha louca. Pra completar ainda se apaixona por um chapeleiro maluco. Isso é que ser ousada.

Ué! Sabe que agora entendi meu gosto por homens esquisitos? Nada como autoanálise.

Mas, voltando ao assunto anterior, alguém aí tem um castelo sobrando? Aceito doações. Mas não vale de cartas, hein?




Trailer do filme original (em inglês).

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Rapunzel costarriquenha

26 de outubro de 2010

Série de críticas de filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema



Do amor e outros demônios (Del amor y otros demonios - 2009) é a história de uma menina de 13 anos com longos cabelos vermelhos chamada Servia Maria que vê seu mundo letárgico mudar após a mordida de um cão raivoso. Passada na época da inquisição, a história é inspirada no romance homônimo do Nobel Gabriel Garcia Marquez. Entendendo que a raiva era uma doença da alma, o bispo de Cartagena obriga o marquês de Casalduero a tirar sua filha ruiva do convívio social para uma suposta cura espiritual sob a supervisão do jovem padre Cayetano Delaura (Pablo Derqui) em um convento de freiras. O amor entre o padre e a ruiva floresce das sessões de exorcismo.

O impacto inicial do filme é delicioso. A primeira cena traz Sérvia Maria, interpretada por Eliza Triana, de pele alvíssima com lindas tranças vermelhas se despedindo em um barco de sua escrava africana de cabelos grisalhos em um turbante também vermelho contrastando com o cenário do fundo todo em tons de verde. É uma cena bela, mas o filme, apesar de bonito, não surpreende.

Falta à estréia da cineasta Hilda Hidago, aquele tempero do realismo fantástico de Garcia Marquez. Muitas cenas carecem de diálogo e a história de amor fica em segundo plano. Para falar a verdade, quase se esquece o nome do longa, ele poderia se chamar Da madorna, demônios e um pouquinho de amor.

Mas afinal, já se sabe que um filme dificilmente alcança a maestria do livro inspirador. Um exemplo bem recente e comercial é “Comer, rezar, amar” com a rasa atuação de Julia Roberts, bela fotografia e péssima adaptação do livro com o mesmo nome. Se essa obra foi difícil de trazer às telas, o que falar de quem tem a ousadia de levar ao cinema toda a genialidade de Garcia Marquez? Não é tarefa fácil. Exemplo disso é a frustrante adaptação de “O amor nos tempos do Cólera” de Mike Newel (2007). Se o longa de Hilda não empolga como um Nobel merece, pelo menos não chega a incomodar quem o vê, isso já é um mérito.

É interessante ressaltar que o filme mantém as inferências fantásticas do livro como em Rapunzel. Ou seja, é apropriado associar o filme ao conto da princesa presa na torre que espera seu príncipe salvador, nisso Hidalgo acertou. Mas o romance proibido de Cayetano e Servia do longa é quase uma história da Carochinha, falta a angústia do sentimento impossível, ou em bom português, falta tesão.

A direção de arte fez um ótimo trabalho e a trilha sonora de Nério Barberis (que não por acaso também esteve à frente do som de “O crime do Padre Amaro” em 2002) combina com a história de um filme que louva o amor.

Mesmo assim vale a pena conferir este filme (co-produção da Costa Rica com a Colômbia) que, assim como outros dez latino-americanos, concorre aos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. E ainda que o Brasil esteja entre estes concorrentes, parece fora do esquadro. Resta saber quando o cinema brasileiro vai seguir essa boa onda latina.

Do amor e outros demônios - trailer


Quer assistir na Mostra? Ainda dá tempo:

Cinemateca - Sala BNDES
Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino
Terça-feira 26 de outubro, 16:30

Belas Artes - Sala 2
Rua da Consolação, 2423, Consolação
Sábado 30 de outubro, 20:10

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Feitiço do beijo

15 de agosto de 2010



Fiz um feitiço de amor e mandei ao céu.
Era assim: toda vez que alguém se apaixonasse nasceria uma fadinha.
E toda vez que alguém desistisse de um amor verdadeiro, um anjinho desapareceria.

Dia desses, andando na Rebouças, pousou em mim uma carta. Dizia:

Senhora Feiticeira,

Por favor! Faça depressa um antídoto para seu feitiço.
Estamos perdendo muitos espíritos celestes por causa do desamor.

Prontamente respondi:

Desculpe, o encanto não sei desfazer. Mas crio um novo para consertar.
Agora, cada beijo bem dado aqui vale um anjinho perdido aí.

Feito meu trato, peço a todos:

Minha gente! Vamos lá!
Beijemos mais
Para o céu ajudar!
Afinal, isso todo mundo faz.

Pode ser qualquer um,
O amor de sempre
Ou até o incomum.

Mas aconselho: não pode dar beijo ruim
Que é para não perder a oportunidade
De salvar um querubim.

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Cor-de-céu-paulistano

15 de março de 2010


Foto original no blog gente de lisboa

Tive um sábado impossível. Impossível para o meu bobo mundo cor-de-rosa. Começou bem, fui ao teatro com uma amiga, coisa mais normal do mundo no meu universo.

Depois de lá, as colegas dela nos chamaram para uma baladinha. Topei. Fui e vi meu mundo cor-de-rosa entrar em choque com a realidade cor-de-céu-paulistano.

No meu universo particular as pessoas não são idiotas, as pessoas não são fúteis e as pessoas definitivamente não usam drogas. No meu mundo cor-de-rosa, as flores são cheirosas, os animais são nossos amigos, há momentos de extremo prazer ao cozinhar para amigos e as pessoas são confiáveis. E eu me esforço pra entender o outro e eu sofro pelo outro no meu mundo. Desculpem se tendo a alienação, eu tenho a péssima mania de ser otimista.

No meu mundo-cor-de-rosa, quando algo dá errado ou a gente resolve ou é porque tinha de dar errado. Quando, por exemplo, um casal não fica junto é porque não queria mais. E uma fadinha morre sempre que um amor se desfaz neste lugar só meu. Ok! Sei que sonho muito e vivo tipo uma Lisbela. D’accord!

Mas na maldita realidade paulistana, vejam só, as pessoas são fracas. As pessoas, no mundo de verdade, coitadas, elas se drogam, se prostituem e são covardes. Por quê? Não dá para ver a estupidez disso tudo? E eu, daqui do meu céu coloridinho fico com raiva e com pena. Com muita pena.

E eu conheço pessoas na realidade paulistana. E eu não posso fazer nada pra ajudar os pobres seres humanos fraquinhos que não têm estrutura para mudar de mundo. Não gosto do sentimento de impotência, porque ela definitivamente não faz parte do meu universo. E quando ela bate na minha cara, é muito triste.

Eu vi um humano tão fraco no sábado e eu não fiz nada para ajudá-lo. Podia ter batido na cara dele, acho que ajudaria. Faria o que pudesse para ajudar, mas é preciso que a pessoa queira ser ajudada. Fico pensando, o que eu realmente posso fazer? Eu também sou humana, cheia de defeitos e fraquezas.

Ver o mundo que vi no sábado, tão cheio de coisas que fazem mal para o corpo e também para a alma e ver aquelas pessoas tão sofridas (sem sequer saber que estão sofrendo) doeu muito.

Como eu queria contaminar o mundo gris com meu céu cor-de-rosa. Mas quem já viu rosa acinzentado? Não existe. Resta-me ficar aqui com minha mania de Lisbela no país do concreto.

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E se fôssemos monstros?

22 de janeiro de 2010




E se houvesse um lugar onde pudéssemos ser selvagens? E se pudéssemos fugir para esse lugar e fazer tudo o que quiséssemos, sem regras ou restrição?

O lugar existe na imaginação de Max (vivido pelo ator Max Records), um menino de 9 anos que se sente solitário e não sabe bem como controlar sua raiva. Os expectadores de “Onde vivem os monstros” (Where the wild things are - 2009) viajam com o garoto para essa terra sem limites.

Em uma noite fatídica, a mãe de Max (interpretada por Catherine Keener) leva o namorado para jantar em casa. É nesse momento que o garoto, em toda sua rebeldia de criança, tenta chamar a atenção da mãe para si. Sem muito sucesso, ele se fantasia de lobo e sobe à mesa da cozinha gritando “Mulher, alimente-me!”. O resultado da estripulia? O castigo de não jantar aquela noite. Max não reage bem à punição, morde a mãe e foge de casa. Ele corre até um matagal e entra em um veleiro mar adentro.

O menino-lobo aporta em uma ilha repleta de monstros. Com fotografia delicada e capacidade de mostrar as relações humanas no dia-a-dia de seres monstruosos, Spike Jonze consegue mais uma vez misturar realidade e ficção sem ser clichê.

Nos filmes “Adaptação” (2003) e “Quero ser John Malkovich” (1999) o diretor trabalhou angústias existenciais típicas de adultos. Com o lobinho Max, ele retrata uma infância cheia de criatividade para lidar com o drama da solidão. O filme é baseado em livro infanto-juvenil homônimo do escritor Maurice Sendak. O roteiro foi escrito por Dave Eggers e pelo próprio Spike.

Os monstros de Jonze são pitorescos - feios e bonitos ao mesmo tempo, todos com personalidades marcantes. Carol é o líder deles e tem uma agressividade aflorada (alter ego do próprio Max). KW é muito dócil e tem vontade de mudar o mundo em que vive. Já Judith é uma monstra rabugenta, vive reclamando mesmo sem motivo.

E se as características humanas dos monstros não forem suficientes para fazer você gostar do filme, afinal "Onde vivem os monstros" foge mesmo do convencional, vale lembrar que a trilha sonora de Karen O, cantora sul coreana, marcada pela mensagem de que tudo é amor (All is Love) impressiona e dá o tom certo de fantasia e solidão de Max.

Mesmo sendo baseado em uma história infantil, o filme tem uma atmosfera muito melancólica, que pode não agradar aos mais jovens. Um enredo envolvente, engraçado, triste, feio e bonito, tudo ao mesmo tempo. É, no mínimo, uma história marcante. Nota máxima para a capacidade de Spike Jonze transformar algo tão fantasioso em um retrato de realidade.

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